Manhãs de Setembro estreia na Prime com Liniker no papel principal

Manhãs de Setembro estreia na Prime Video com Liniker no papel principal

Manhãs de Setembro: uma série sobre afeto

Antes que o mês da visibilidade LGBTQIA+ chegue ao fim, a Amazon Prime Video lança Manhãs de Setembro. A série estreou na plataforma de streaming trazendo Liniker como a protagonista Cassandra. A saber, a trama gira em torno da construção de uma relação parental entre Cassandra e Gersinho, o filho de dez anos recém-descoberto. Com uma sensibilidade incrível, a série conta a história de uma mulher negra, trans e pobre. Porém, sem fazer dessas características o tema central da série, que foca em redes de afeto e nos corres para realizar os sonhos.

Manhãs de Setembro estreia na Prime Video com Liniker no papel da protagonista Cassandra, contruindo uma relação com o filho recém-descoberto. Veja!

Desvendando Cassandra

Um dos pontos de destaque de Manhãs de Setembro é sua protagonista. Afinal, não é difícil encontrar um ponto de identificação/admiração em Cassandra. Ela é talentosa, trabalhadora, obstinada, tem amizades sinceras e um relacionamento tranquilo. Além disso, como fruto de sua luta diária, enfim, conquistou um de seus maiores sonhos: um apartamento para chamar de seu. Ela consegue conciliar seu trabalho como entregadora com a sua paixão pela música, em especial pela cantora Vanusa. Além disso, não é mais uma adolescente, já chegou na casa dos 30 e entende bem quem ela é. Outro detalhe sobre a personagem de Liniker é passar a impressão de não ser uma pessoa que busca aventuras. Ao contrário, parece desejar uma vida estável e pacífica.

Manhãs de Setembro estreia na Prime Video com Liniker no papel da protagonista Cassandra, contruindo uma relação com o filho recém-descoberto. Veja!

De fato, é um grande mérito da Prime Video construir uma personagem transexual com tantas camadas. Isso porque foge do óbvio quando se trata de produções com personagens trans. Afinal, o foco não está na transição ou na marginalização de uma travesti negra, apesar de a série mostrar algumas situações de preconceito (inclusive começa com uma porta na cara). Certamente, o racismo, a transfobia e o machismo ainda precisam ser denunciados, principalmente no Brasil, o país mais letal para transexuais. Mas a própria representatividade já é uma arma muito poderosa. Até porque, pessoas trans e negras , embora tenham demandas específicas são pessoas e vivem histórias e afetos que precisam ser mostrados.

As relações de Cassi

Já no primeiro capítulo de Manhãs de Setembro conhecemos um pouquinho sobre as relações de Cassandra. No caso, somos apresentados a Ivaldo e Roberta, o namorado e a amiga, respectivamente. O personagem de Thomás Aquino é carinhoso e respeitoso com Cassandra, mas não deixa de ser um homem casado. Ela sabe que, se ele precisar decidir, a escolha provavelmente não será ela. Porque a escolha quase nunca é a amante transexual. Essa relação fala muito sobre a solidão da mulher trans e negra, que às vezes até recebe afeto, mas, na maioria dos casos, não recebe o direito a uma relação oficial.

Por outro lado, a amizade com Roberta e Pedrita traz um grande afago: a sororidade entre mulheres trans. Afinal, mais do que ninguém, elas se compreendem, se identificam. Portanto, entendem a importância de se fortalecerem mutuamente. Embora Cassi tenha outros amigos, como Décio e Ari, é fundamental para ela ter referências trans e negras em seu círculo de convivência

Outras relações importantes de Cassandra são: com sua mãe e com sua ídola Vanusa. Na verdade, para Cassandra, Vanusa é bem mais do que uma cantora dos anos 70. Ela funciona como uma espécie de voz da consciência às avessas. Na verdade, é um instinto de autopreservação levemente egoísta, mas, no fim das contas, boa parte dos conselhos dados por Vanusa em sua consciência sequer são ouvidos pela protagonista. A paixão pela cantora, obviamente, passa por todo talento e história dela, mas é também um tipo de vínculo afetivo de Cassandra com a mãe de quem herdou a paixão por Vanusa. Talvez seja uma forma de sentir a mãe mais perto.

Uma nova família

A vida de Cassandra estava indo bem. Enfim, condições de bancar o aluguel e ter o próprio espaço que levou 30 anos para conquistar. ela só queria sua privacidade, liberdade e independência. Até que uma surpresa bateu, literalmente, à sua porta. Leide, trazendo consigo Gersinho, o filho que a personagem de Liniker não fazia ideia de que existia. A princípio, a primeira reação de Cassi foi choque e negação. Mas, em verdade, o que as palavras dela diziam, as atitudes eram o oposto. Certamente, não deve ser fácil descobrir um filho depois de tanto tempo. No entanto, embora exista um ímpeto em fugir, no fundo, Cassi encontrou uma nova possibilidade de dar e receber amor.

A construção de uma relação familiar de Cassandra com Gersinho e consequentemente com Leide é uma mensagem forte e necessária. Primeiro pelo que fala sobre a própria personagem. O abandono materno fez com que Cassandra perdesse a referência de cuidado e proteção. Justamente por isso, ela não se via capaz de cuidar nem de um simples cacto, quem dirá de uma criança. Mas ao mesmo tempo, o menino traz pra ela a possibilidade de construir uma relação bem diferente da que teve com os pais. Gersinho, na verdade, era um recomeço.

Além disso, é extremante importante que uma série aborde as novas configurações de família. Nesse caso, ainda mais essencial que crianças sejam inseridas nas narrativas, já que também fazem parte dessa reconfiguração familiar. Manhãs de Setembro traz essa questão de maneira sensível num momento em que parte da sociedade tenta esconder das crianças a existência e humanidade de pessoas LGBTQIA+, além da necessidade de respeitá-las.

Gersinho e Leide

Se Liniker se encaixou perfeitamente na pele de Cassi, Karine Teles e Gustavo Coelho não ficam atrás. Gersinho é introspectivo e ingênuo. Em parte isso se deve ao cuidado de Leide que tenta ao máximo protegê-lo da realidade em que vivem. Em parte é fruto de toda a insegurança pela ausência paterna, a hipossuficiência e a situação de rua. Mas também tem a parcela de introspecção que é característica pessoal de Gersinho. A ingenuidade dele fica ainda mais evidente em contraste com a icônica Grazy. De fato, Gersinho não entendia absolutamente nada sobre transexualidade. Ele foi atrás de um pai chamado Clóvis e encontrou Cassandra. No entanto, a necessidade compartilhar afeto era bem superior a busca por uma figura masculina.

Leide, por sua vez, é uma mulher esperta, uma sobrevivente. Ela ocupa linha tênue entre obstinada e folgada. Mas a verdade é que ela quer viver e não só sobreviver. E não dá pra julgar uma pessoa em situação de rua buscando pelo mínimo de prazer, conforto e dignidade. Além disso, ela é uma mãe capaz de tudo pelo filho. Como boa personagem polêmica, Leide tem uma atitude transfóbica ao ver o menino usando um vestido, mesmo que de brincadeira. Entretanto, além da transfobia, havia o ciúme de Gersinho e o medo de que ele a trocasse por Cassandra. A relação com o filho era o que ela tinha de mais verdadeiro e valioso.

Cassandra, sem dúvidas, foi vítima de transfobia muitas vezes. Então, o choro depois da atitude e Leide não foi pela atitude em si, mas porque, apesar de ainda estar em negação, já sentia afeto pelo filho. Essa família já existia. E qual família não tem suas crises?

O elenco de Manhãs de setembro

Certamente, um dos pontos chaves da série da Prime Video é o elenco. Além da protagonista vivida por Liniker, Manhãs de Setembro ainda conta com nomes como Karine Teles, Thomás Aquino, Clodd Dias e o ator mirim Gustavo Coelho. Além disso traz participações super especiais como Paulo Miklos, Linn da Quebrada e Gero Camilo. Outro ponto a se destacar é a incrível participação de Elisa Lucinda como a voz de Vanusa na consciência de Cassandra. Também foi uma grata surpresa a super espontânea Isabela Ordoñez.

Além dos atores, por detrás das câmeras a série também contou com um super time. A saber, a trama foi escrita por Josefina Trotta, Alice Marcone, Carla Meirelles e Marcelo Montenegro. A produção ficou por conta de Andrea Barata Ribeiro e Bel Berlinck.

Sugestão: Crítica | Em um Bairro de Nova York , (In the Heights)

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