O Último Duelo retrata de forma bem singular a misoginia do século XI

O Último Duelo retrata de forma bem singular a misoginia do século XI

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Ridley Scott tem, em seu currículo, filmes aclamados e outros não tão elogiados. Portanto, cada obra nova é uma nova expectativa de desempenho e crítica. Agora, o recém lançado ‘O Último Duelo’ pleiteia seu lugar ao sol. A saber, o filme mostra a batalha entre Jacques Le Gris e Jean de Carrouges, contextualizando os eventos que culminaram no fato histórico. O enredo, a princípio, parece uma disputa entre mocinho e vilão em busca de honra. Porém, na realidade, é um retrato da misoginia do século XVI que, em muitos aspectos, perdura até hoje. Nesse contexto, o destaque é de Marguerite de Carrouges, responsável por narrar o fato da perspectiva feminina.

Texto escrito em parceria com @glauber

O Último Duelo de Ridley Scott mostra a batalha entre Jacques Le Gris e Jean de Carrouges, mas o destaque é de Marguerite e da perspectiva feminina.

Sinopse de O Último Duelo

A história se situa na França de 1300, e retrata aquele que viria a ser o último julgamento por duelo legal no país. Nele, os escudeiros Jean de Carrouges (Matt Damon) e Jacques Le Gris (Adam Driver) se enfrentam por justiça e honra. A partir disso, o filme aborda as várias versões dos fatos que antecederam o ocorrido. Isso inclui as motivações e consequências de cada elemento da história para, então, alcançar o ponto chave da trama e o ápice dela. Contudo, é certo afirmar que o longa consegue tal feito ou frustra nossa expectativa? Confira!

O enredo de O Último Duelo gira em torno da acusação de estupro Marguerite de Carrouges a Le Gris. No entanto, e ele nega. Ainda assim, ela se recusa a ficar em silêncio, avançando para acusar seu agressor. Mas esse mesmo ato de bravura também coloca coloca sua vida em perigo.

UM NOME QUE NÃO DEPENDE DE APRESENTAÇÕES

Se tem uma coisa que Ridley Scott sabe fazer é contar uma história. O aclamado diretor tem inúmeros filmes memoráveis na sua carreira. Portanto, é sempre lembrado com muito carinho por qualquer amante do cinema. A vasta cinegrafia do diretor inclui títulos como ‘Blade Runner’, ‘O Gladiador’, ‘Alien – O Oitavo Passageiro’, ‘Perdido em Marte‘ e mais uma série de outros filmes incríveis que os fãs de cinema já ouviram falar. Contudo, apesar de tantos bons filmes, não apenas de reputação se sustenta uma obra e muitos questionavam se o diretor traria uma boa novidade.

É verdade que o diretor já produziu alguns filmes de épocas medievais sem ter muito sucesso, como ‘Robin Hood‘, e outros um pouco mais reconhecidos, como ‘Kingdom of Heaven’. Entretanto, no que se trata de ‘O Último Duelo‘, o filme conseguiu ir além das expectativas e entregar algo maior e melhor. O que temos aqui é um filme intrigante, com uma trama bem intrincada que evolui gradativamente para um desfecho muito distante do que se espera.

A narrativa crescente em O Último Duelo

O filme é imprevisível e vai tomando caminhos extremamente diferentes do que se esperaria para um filme medieval. As decisões tomadas pelo enredo fazem com que o longa, sempre que avançasse na história, assumisse uma nova camada de compreensão e enriquecesse ainda mais a trama. Com isso, a história vai criando lentamente o terreno necessário para que os conflitos, tensões e críticas ganhem seu espaço. O que Ridley Scott fez foi criar um filme que evolui a cada capítulo e montar uma rede de ocasiões que, apesar de mudarem a cada versão contada da história, giram em torno dos mesmos fatos enquanto entrega aos poucos as nuances do ocorrido.

Para falar mais das versões abordadas, o longa é dividido em 3 capítulos, cada um contando o ponto de vista de algum dos personagens sobre os eventos que antecederam o duelo. Era sabido que o conjunto dos fatos, independente de qual fosse, iria resultar no duelo que rege a história. Contudo, no que se trata das motivações de tal duelo, as personalidades e até mesmo detalhes no comportamento dos personagens vão mudando a cada instante não apenas o panorama da história, mas tudo o que este duelo representava para cada personagem. Como resultado, a cada nova perspectiva dos fatos, nossa compreensão sobre os ocorridos muda gradativamente.

O Último Duelo de Ridley Scott mostra a batalha entre Jacques Le Giris e Jean de Carrouges, mas o destaque é de Marguerite e da perspectiva feminina.

A verdade segundo Marguerite de Carrouges (a verdade)

Isso continua até que, ao chegar no momento do duelo, já não se trata mais sobre dois homens disputando sua honra na espada, mas sobre toda a condição social da Europa feudal, principalmente para as mulheres. Portanto, por mais que cada capítulo sejam apenas versões de cada personagem sobre os mesmos fatos, a cada versão se muda o tipo de história contada. Na primeira, temos a versão de um homem subjugado que tenta trazer honra e justiça para sua mulher e para si, lutando para alcançar a glória. Na segunda versão, a história de um homem benevolente e dedicado ao seu amigo que acaba vivendo um amor proibido e pretende lutar por ele. Na terceira versão, como o próprio filme nos mostra, o que temos é a verdade.

O Último Duelo de Ridley Scott mostra a batalha entre Jacques Le Giris e Jean de Carrouges, mas o destaque é de Marguerite e da perspectiva feminina.

Europa Medieval: suja, porém bela

Ainda tratando de outros acertos do longa, não podemos negar a fotografia deslumbrante de O Último Duelo. O filme traz uma cenografia bem suja, regada a sangue e cenas de luta muito violentas. Tais cenas, certamente, dão um tom bem sério e opressivo durante todo o filme. Ao retratar a Europa de 1300, a escolha de cores escuras associadas a locações arborizadas, com bastante lama e alguns belos castelos, a veracidade das imagens potencializou muito o peso dos assuntos que a trama aborda.  

As imagens bucólicas formaram um ótimo pano de fundo para o desenvolvimento do enredo e encheram nossos olhos de beleza. Isso inclui até mesmo os momentos mais violentos, sujos e enojantes. Todos os elementos da imagem estavam em harmonia com os acontecimentos e, ao funcionarem juntos com o roteiro e as esplêndidas atuações, criavam os elementos necessários para uma incrível imersão.

Se tratando de atuação, se já não bastasse a direção nas mãos de um dos maiores nomes do cinema, o filme era ainda mais atraente devido ao seu elenco. Matt Damon, Adam Driver, Ben Afflek e Jodie Comer praticamente nos seduzem a sentar na poltrona do cinema e passar umas horas curtindo essa obra incrível. Inclusive, esse chamariz todo não é sem motivo. A competência do elenco é tamanha que, ao variar entre as 3 perspectivas, os atores conseguem expressar pequenos detalhes que fazem a “mesma cena” parecer uma coisa completamente diferente e nova, sem de fato ser. O que vemos em tela são atores sensacionais entregando o melhor das suas atuações e fazendo a gente se emocionar com um trabalho sensacional.

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Sugestão de leitura: Sem Tempo Para Morrer encerra a era Daniel Craig na franquia 007 (kolmeia.net)

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