Os sonhos de Elis Regina foram sonhados e realizados nos palcos da vida. O mundo chegou a conhecer a “pimentinha”, apelido dado por Vinícius de Moraes, autor de muitos dos seus sucessos no início da carreira, pelo jeito espontâneo e explosivo da gaúcha, e a quem Elis tinha como um pai. O espetáculo “Elis – A Musical“, retornou aos palcos do Rio de Janeiro, no dia 11 de Setembro, no Teatro Riachuelo Rio, Centro da cidade. Dirigido por Dennis Carvalho, com textos de Nelson Motta, grande amigo da artista, e Patrícia Andrade, “Elis” é estrelado por Laila Garin, artista multifacetada que retorna ao espetáculo, onde divide a personagem em algumas sessões, com a talentosa Lilian Menezes.

Tudo começou há 10 anos atrás…
A minha memória não falha. Em 2013, em um outro teatro, na Zona Sul do Rio, à época Teatro Oi Casa Grande, hoje apenas Teatro Casa Grande, vivi na pele os desenlaces de cada nó da vida de Elis Regina Carvalho Costa. Desde sua chega ao Rio, pouco antes do Golpe de 64 e até a sua despedida dos palcos e da vida, em Janeiro de 82, Elis viveu intensamente. E amou e cantou também.
Carvalho conduz o espetáculo de tal maneira, com que sempre tenhamos uma memória

afetiva, ligada a alguma canção de Elis, nos seus momentos mais ligados ao país, a liberdade e ao sofrimento. Se Tom Jobim e Vinicius de Moraes sempre compuseram enamorados, Elis sempre interpretou apaixonada. E isso é bem capturado por Laila Garin, talentosa atriz, que retorna 10 anos depois, e parece ainda mais excelente.
Desde os seus trejeitos, e mudanças bem determinadas pelas orientações de um bon vivant Ronaldo Bôscoli, de Luis Carlos Miele, e Lennie Dale, Elis sai de uma gaúcha tímida para uma intérprete excepcional, retratada no musical com preciosidade até o momento de “Arrastão”, que é um divisor de águas entre a Bossa Nova e a MPB, e de Garin também, como a gaúcha. Com a música, Elis Regina venceu o 1° Festival da Música Popular Brasileira, exibido pela TV Excelsior, em 1965.
Musicalidade do espetáculo continua em alto nível
Com um uso dinâmico dos cenários, facilmente conseguimos estar de frente para a intimidade de Elis Regina e do seu já marido e produtor, Ronaldo Bôscoli, interpretado por Marcelo Varzea de forma magistral, como do outro lado mundo, onde Elis canta em francês. O espetáculo ressalta a carência da cantora, que envolta em uma dependência emocional muito grande, que se alia à vontade de ter controle sobre tudo, leva a pimentinha a sucumbir emocionalmente.
A intérprete de “Romaria”, “Sentimental eu fico” e “Como Nossos Pais”, evolui no palco, a medida que a encenação de Laila Garin, dialoga com o profissionalismo, maturidade e revoltas de Elis. Trazendo grandes embates com César Camargo Mariano, interpretado pelo seguro Cláudio Lins, que também tem ótimos números musicais. A sensação é de nostalgia e de descobertas curiosas sobre a vida cantora. Ainda que depois de 10 anos, é possível se surpreender com a Maior Cantora do Brasil.
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Elenco do espetáculo é co-protagonista da montagem
Os cenários, as trilhas, figurinos e as coreografias de “Elis – A Musical” estão mais interessantes. Temos uma participação gigantesca do elenco de apoio, em canções e alegorias cênicas. O que é muito merecido, já que são todos muito talentosos. Seus personagens, ainda que os mais coadjuvantes, ganham vida na nossa memória, com um destaque louvável ao intérprete de Lennie Dale, Leandro Melo. Dale, ao que parece, em todas as adaptações, ganha muita importância na vida artística e pessoal de Elis.
Na reta final, onde todos cantam “Redescobrir”, sucesso de Gonzaguinha, a extensão vocal dos atores, auxiliada por uma banda que toca ao vivo e por todos os aspectos eletrônicos que ampliam a técnica dos artistas, temos o ponto alto do musical. Em cartaz até Domingo, 03 de Novembro, no Teatro Riachuelo Rio, “Elis – A Musical”, o espetáculo tem público cativo. Mais de 380 mil pessoas já viram o musical.
“Elis – A Musical” parece ter perdido um pouco do cunho político, porém, aderiu muita dinâmica e espontaneidade. Parece ora mais dramático, ora menos preocupado com a velocidade e o momento onde as coisas estão acontecendo. Mas tudo para o bem, e faz bem, ao espetáculo. Uma recordação em forma musical de um período da história do Brasil, por uma de suas melhores definidoras. Que se remonte tantas e tantas vezes, quanto forem necessárias, aliás, como a mãe de João Marcelo, Pedro Mariano e Maria Rita mesmo dizia…
…”sei que nada será como antes, amanhã”.
