Será que a tecnologia 3D pode preservar a memória carioca?
A interseção entre tecnologia imersiva, jogos e preservação cultural ganha novos contornos no Rio de Janeiro. Durante o painel promovido no ARUA Fala que faz parte do evento ARUA Summit, o debate mediado por Lilian Farrish destacou como a modelagem em três dimensões e a cartografia digital deixaram de ser mero entretenimento para se tornarem instrumentos ativos de identidade urbana, educação e resgate histórico.
Representação real da periferia nos games
Desenvolvido por Wengel Hiago (WH Mods), o projeto “Verdadeiro Rio de Janeiro” nasceu da necessidade de contrapor a estética do GTA, pautada pela realidade estadunidense, criando um mapa em escala real da capital fluminense. A proposta vai além do lazer: ao reproduzir elementos cotidianos como vender produtos no trem da SuperVia (agora Trens RJ), brincar com bolhas de água e soltar pipa, a iniciativa conecta jovens à sua própria vivência. Projetos pedagógicos e escolas já utilizam o simulador para ensinar geografia, história e arquitetura de forma engajadora, prevendo modos de jogo educativos e sem violência.

Cartografia digital resgata a Pequena África
Paralelamente, a plataforma “Memórias da Pequena África”, desenvolvida por Gabriel Ferreira (Giga) pela TEC Preta, organiza mais de 1.200 pontos de memória da região portuária do Rio. A ferramenta preenche lacunas históricas sobre locais descaracterizados pelo tempo, como a antiga localização da casa de Tia Ciata ou a ocupação do Morro da Providência anterior à Guerra de Canudos. Trata-se de uma cartografia viva construída com curadoria comunitária local, projetada para apoiar pesquisas escolares, turísticas e universitárias.
Modularidade 3D garante acessibilidade técnica
Do ponto de vista técnico, a recriação urbana exige otimização. Wengel Hiago utiliza o conceito de modularidade multiplicando modelos base como lixeiras, postes e estilos de cabelo para garantir que cenários complexos rodem em computadores mais simples. Essa eficiência é crucial em um cenário onde o acesso ao hardware avançado ainda é desigual, tornando espaços públicos e programas sociais fundamentais para democratizar o uso pedagógico dos jogos e das mídias digitais.
A convergência entre desenvolvimento 3D, mapeamento comunitário e cultura gamer prova que a tecnologia é uma ferramenta política e social capaz de reescrever narrativas históricas. Ao colocar o morador como agente e criador da sua própria representação virtual, essas iniciativas garantem que o patrimônio imaterial da favela e dos centros urbanos permaneça vivo e acessível às próximas gerações. O futuro da preservação cultural é imersivo, colaborativo e profundamente territorial. Quando a periferia ocupa o código, a memória urbana se torna inesquecível.
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