Como a arte manual resiste à amnésia digital
Vivemos uma era em que a urgência dos algoritmos e a cultura do consumo rápido nos empurram para uma amnésia crônica e coletiva. Em meio a esse ruído ensurdecedor da internet, parar para observar a minúcia de um trabalho manual rigoroso torna-se um verdadeiro ato de resistência. É exatamente esse o fôlego que encontramos em Gestos Cotidianos, exposição individual e inédita do artista pernambucano Renato Bezerra de Mello, que inaugura no dia 3 de outubro no Sesc Tijuca. Com curadoria cuidadosa de Daniela Name e Jocelino Pessoa, a mostra é um convite vital para desacelerar e mergulhar em narrativas orgânicas, construídas no tempo da experiência humana.
O tempo impresso no papel
Muito distante da efemeridade das telas brilhantes e das tendências de curtíssimo prazo, a obra de Bezerra de Mello exige presença e reflexão. A exposição investiga como a prática laboriosa do ateliê incide diretamente sobre a memória e a autobiografia do artista. São relações amorosas, episódios familiares e vestígios do cotidiano transformados em matéria. Como bem pontua a curadora Daniela Name, há uma escolha propositalmente anacrônica no uso massivo do papel e de suportes analógicos. Trata-se de uma ironia fina e necessária contra o que ela define como a “saturação dos dispositivos tecnológicos de inteligência superficial”. É, acima de tudo, o triunfo da autofabulação autêntica sobre a mecanização do sentir.
Instalações que convidam ao toque
A galeria ampla e iluminada do Sesc Tijuca foi desenhada para abrigar 11 conjuntos de trabalhos que mapeiam a pesquisa do artista. O percurso foge das montagens convencionais e convida o visitante a uma experiência espacial profunda. No centro do ambiente, a instalação Lembranças e esquecimentos (2005) toma parte do chão com milhares de tirinhas escritas em papel cristal. Ao olhar para o alto, o público se depara com a ocupação aérea Cópia da cópia (2006). O espaço materializa histórias contidas em papéis guardados, ressignificando arquivos esquecidos que foram desviados, picotados e perfurados para ganhar um novo corpo.
A repetição como força criativa
O que, aos olhos da hiperconectividade de hoje, poderia parecer um simples movimento monótono é, na verdade, uma densa digestão da própria existência. O artista agrupa exemplares que parecem idênticos, mas que carregam a singularidade do erro e do fazer manual. Na série inédita Nozinhos, Bezerra de Mello cria ninhos e corações a partir de fios de linha amarrados rigorosamente um a um. Esse gesto ininterrupto também transparece em obras impactantes como Fingindo repetir o idêntico (2016) e Ouro negro (2015). São bolinhas criadas pela poeira de linhas de seda ou esculturas de grafite moldadas pela fricção, entregando uma materialidade poética imensurável.
Ativações e imersão cultural
Além de oferecer um percurso contemplativo de alto nível, a exposição viabilizada pelo Edital de Cultura Sesc RJ Pulsar promoverá espaços de diálogo e troca presencial. A programação, que tem entrada gratuita e se estende até o dia 3 de janeiro de 2027, inclui uma oficina de escrita com a poeta Bianca Ramoneda e um debate marcado pelo lançamento de ensaios críticos dos curadores. Uma chance de ouro para trocar a rolagem infinita do feed por uma escuta ativa.
A exposição de Renato Bezerra de Mello prova que a minúcia do fazer artesanal permanece como um antídoto vital contra a superficialidade do nosso tempo. Ao transformar fragmentos pessoais em um território de empatia e escuta coletiva, a mostra consolida a urgência de preservar nossas próprias narrativas. Esse resgate tátil aponta para um futuro onde o público buscará cada vez mais refúgios analógicos e imersivos para escapar do esgotamento digital. Afinal, a verdadeira memória não se armazena na nuvem, mas se constrói no calor do toque e na lentidão do gesto humano.
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