O Marco Legal e a Nova Fronteira do Setor
Atraso histórico superado e o impacto regulatório foram pautas na palestra do Rio Market
O ecossistema da economia criativa brasileira vive um momento de profunda e necessária reconfiguração. Durante o RioMarket, um dos painéis mais instigantes colocou em pauta a intersecção simbiótica entre o universo dos videogames e a indústria audiovisual tradicional. Sob a moderação de Raquel Gontijo, diretora de Relações Institucionais e Governamentais da Abragames, o debate reuniu nomes de peso do setor como Kwan Yin Gil (presidente da Acjogos-RJ e consultora da The Powell Group), Mari Uchôa (cofundadora da DiversiGames) e Rafael Vallaperde (CEO da Lightfarm). O ponto central da discussão partiu de uma premissa regulatória transformadora: a sanção do Marco Legal dos Games (Lei 14.852/24), que passou a enquadrar oficialmente os jogos eletrônicos como formato audiovisual.
Enquanto mercados internacionais tratam os videogames como pilares estratégicos de suas indústrias culturais há mais de uma década, o Brasil busca recuperar o tempo perdido com agilidade. A equiparação legal não se resume a uma mudança burocrática; ela redefine a forma como criadores, produtoras e formuladores de políticas públicas enxergam o setor. Ao alinhar narrativas interativas e cinematográficas sob o mesmo guarda-chuva de fomento, o país abre caminho para uma era de inovação onde a convergência deixa de ser apenas um conceito teórico para se transformar em receita real.
Propriedade Intelectual e os Desafios de Mercado
O labirinto dos contratos e a escada de valor produtivo
Um dos nós górdios debatidos no painel foi a soberania sobre a Propriedade Intelectual (IP). Afinal, o Brasil cria e licencia IPs próprias ou atua majoritariamente sob encomenda, produzindo serviços terceirizados para conglomerados internacionais? A resposta revelou uma ferida aberta no mercado nacional. Estúdios locais frequentemente executam trabalhos primorosos para gigantes globais como Riot Games e Blizzard, mas capturam apenas uma fração minúscula do valor gerado. Enquanto isso, o risco operacional recae sobre as equipes brasileiras, enquanto o lucro bruto e o controle estratégico permanecem no exterior.
O caso emblemático do jogo do Irmão do Jorel ilustrou perfeitamente esse abismo contratual. Mesmo adaptando uma propriedade intelectual genuinamente brasileira e de enorme sucesso popular, a exploração comercial esbarrou em amarras contratuais e na falta de suporte estrutural dos detentores da marca original. Para ilustrar como escapar dessa armadilha, Rafael Vallaperde ( Ceo da Lightfarm Studios) apresentou uma “escada de valor” produtiva: o processo evolui da prestação de serviços pura até a copropriedade e posse total da IP, passando por parcerias criativas, coproduções com risco compartilhado e modelos de revenue share. Sem uma musculatura jurídica sólida e planejamento de longo prazo, os estúdios nacionais continuam vulneráveis nas mesas de negociação.
Por que o brasileiro consome pouco jogo nacional?
A barreira da comunicação, ficha técnica e imprensa
Outro ponto nevrálgico levantado no evento foi a baixa penetração dos jogos nacionais no próprio mercado interno. Por que o público brasileiro consome vorazmente produções estrangeiras, mas frequentemente ignora o que é produzido em solo nacional? Mari Uchôa ( CEO da DiversiGames) pontuou que esse reflexo cultural não é exclusividade dos games, repetindo-se historicamente na música e no cinema devido a uma dependência estrutural de conteúdos importados.
A discussão ganhou contornos práticos quando Fernando, sócio-fundador do site Kolmeia.net, trouxe uma perspectiva essencial do jornalismo especializado. Enquanto estúdios internacionais inundam redações com media kits completos, convites antecipados e campanhas agressivas de divulgação vide o bombardeio midiático em torno de lançamentos de peso como Grand Theft Auto VI , a produção independente brasileira sofre para estabelecer pontes com os canais de comunicação. Se a informação qualificada não chega aos veículos e influenciadores, ela tampouco alcança o consumidor final, formando um ciclo vicioso de invisibilidade que precisa ser quebrado coletivamente.
Educação, diversidade e o futuro transmídia
Jogos como ferramenta social e a Conexão entre mídias
Apesar dos desafios estruturais, iniciativas inspiradoras provam que a união entre games e audiovisual pode gerar impacto socioeconômico real. Mari Uchôa destacou o trabalho pioneiro da DiversiGames, que utiliza os jogos eletrônicos não apenas para promover o letramento digital de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade, mas também para formar novos desenvolvedores e atletas de e-sports em polos no Rio de Janeiro, Niterói e São Paulo. A criação de um estúdio independente focado em diversidade demonstra que é perfeitamente viável aliar objetivos comerciais e transformação social.
Na mesma linha, intervenções do público reforçaram a urgência de dissolver fronteiras artificiais entre as artes. O cinema, a literatura, a educação e os games compartilham a mesma essência: contar histórias marcantes. Seja abordando episódios históricos complexos ou resgatando o folclore nacional, a convergência de saberes amplia o alcance cultural e pedagógico das produções.
O mercado de games e audiovisual no Brasil caminha para uma maturidade incontestável, impulsionado por marcos regulatórios modernos e pela resiliência de seus profissionais. Superar os gargalos de propriedade intelectual e estreitar os laços com a imprensa especializada são passos fundamentais para transformar talento criativo em valor comercial duradouro. O futuro da nossa economia criativa reside na capacidade de articular redes, proteger nossas histórias e ocupar o devido protagonismo no cenário global.
Se curtiu esta análise e quer ficar por dentro de tudo o que rola nos bastidores da cultura pop, do cinema, dos e-sports e da tecnologia, continue navegando pelas novidades do site Kolmeia e acompanhe nossas publicações nas redes sociais.









