Contos distópicos carregados de críticas sociais atuais
“Sonhos Elétricos” é um dos maiores sucessos do famoso autor Philip K. Dick, que se destaca por suas distopias, como “O Homem do Castelo Alto“, “Blade Runner”, dentre outros.
Esta obra nos apresenta dez contos, cada um em uma realidade diferente. São contos futuristas, em realidades totalmente distintas, às vezes até planetas diferentes, mas uma coisa permanece igual: os seres humanos e a falta de evolução interna destes. Ficou curioso? Confira abaixo um breve resumo de cada conto, sem spoilers, bem como algumas informações sobre a série.

Confira um pouco sobre cada conto de “Sonhos Elétricos”
“Peça de Exposição”
Miller vivia em uma época do futuro em que imperava uma certa ditadura, as pessoas não tinham muitas escolhas nem liberdade para fazer o que quisessem. Por este motivo, ele era obcecado pelo Século XX, aprofundando seus estudos sobre essa época.
Então, ele decide focar seu trabalho em fazer uma maquete realista sobre aquele século, para que as pessoas pudessem visitar e conhecer. Ele fica tão obcecado, que começa a se comportar e a falar como se vivesse no Século XX, e seus superiores não gostam nada disso.
Medidas drásticas são tomadas quando Miller descobre que pode haver mais em seu trabalho do que ele imaginava. Como será que o governo de sua realidade atual lidará com isso? E Miller? Fica aí o questionamento.

O título deste episódio na série é “Vida Real”. A história foi adaptada de forma bem diferente, mas a essência do conto está presente. Ronald D. Moore foi o roteirista e produtor deste episódio. Nas palavras dele:
Descobri que isso acontece repetidamente no universo de PKD – temas interessantes e provocantes que estão enterrados em sua obra e que continuam sendo relevantes para nossas vidas muitos anos após terem sido escritos originalmente.
“Autofab”
Earl Perine, Morrison e O’Neill são alguns dos habitantes da Terra após uma guerra apocalíptica que deixou o planeta um caos, o que levou as máquinas ao controle de todas as fábricas. Cada fábrica era responsável por um Estado. Com a frequência determinada, um caminhão automatizado passava deixando alguns suprimentos para os habitantes e assim eles se mantinham.
No entanto, os homens citados acima não estavam mais conformados com isso, queriam voltar a ter o controle sobre as fábricas e voltar a trabalhar, pois a guerra acabou e as máquinas não devolveram nada para os humanos. Depois de várias tentativas, eles finalmente descobrem um meio de fazer isso. No entanto, tantos desdobramentos acontecem que nós ficamos em dúvida sobre o que é melhor ou não, bem como se e quando tudo aquilo teria um fim.

Este episódio tem o mesmo nome do conto e foi roteirizado e dirigido por Travis Beacham, que disse:
A tecnologia neste conto é pouco mais do que um fantasma do que fomos um dia. Não estamos lutando contra ela. Estamos lutando contra nós mesmos. No fim das contas, fala sobre a humanidade – e essa é a verdadeira marca de um grande conto de Philip K. Dick.
“Humano é”
Aqui conhecemos Jill e Lester Herrick, casados há cinco anos, mas já desconectados há um tempo. Lester vinha cada vez mais focado no trabalho, e Jill se sentia de lado. A história se passa numa Terra muito mais militarizada do que jamais conhecemos.
Quando Lester é convidado para ir ao planeta Rexor IV a trabalho, sente-se realizado. Já Jill decide que quando ele voltar, irá se separar. No entanto, acontece o inimaginável: Lester volta totalmente diferente, o marido com o qual ela sempre sonhou.
Mas estava bom demais para ser verdade, e o que vem à tona deixa Jill arrasada: Lester não é exatamente o homem com quem se casou. Agora a mulher precisa decidir: fazer o correto, o que os governantes determinam, ou ignorar todo mundo e seguir sua vida feliz?

A roteirista e produtora deste episódio, que tem o mesmo nome do conto, é Jessica Mecklenburg, mais conhecida por seu trabalho em Stranger Things. Jessica diz ter escolhido este conto porque o apuro em que Jill Herrick havia se metido ecoou profundamente nela. Ainda, em suas palavras:
“Humano é” explora a seguinte questão central: o que significa ser humano? […] Afinal, à medida que a evolução, a inovação e a tecnologia colidem inevitavelmente, uma verdade fundamental permanece: ser humano significa amar.
“Argumento de venda”
Edi Morris está estagnado em sua rotina. Ele mora na Terra com sua esposa Sally e trabalha em Ganimedes, outro planeta. O trajeto fica congestionado por vários outros trabalhadores e a viagem dura cerca de duas horas. Mas uma das coisas que mais incomodam Edi é a quantidade de propagandas que abarrotam o caminho inteiro. Ele não aguenta mais essa guerra pelo consumismo.
Como se não bastasse, quando chega à Terra ele ainda se depara com robôs que ficam andando atrás das pessoas fazendo propagandas até que elas enlouqueçam ou corram para casa. Por todos esses motivos, Edi sugere a Sally que simplesmente fujam para um lugar mais remoto, como “Proxima Centauri”. Sally, que é mais conformada que o marido, aceita a mudança, mais pela aventura.
No entanto, quando estão prestes a sair, um robô diferente, “aicad”, chega oferecendo seus trabalhos. Ele supriria todas as necessidades de casa e poderia até substituir Edi no trabalho por uns dias. Mas quando o casal se recusa a comprá-lo, o robô se recusa a ir embora, tornando-se, assim, um novo tormento. Como livrar-se disso agora?

Tony Grisoni é o roteirista e diretor do episódio correspondente, que na série se chama “Diamante Absurdo”. Sua inspiração para esta adaptação veio, pasmem, ao observar um sapo em seu chuveiro, que não se moveu por três dias. Sobre o conto, Tony diz:
A história é fortemente embasada no florescente consumismo dos anos 1950, mas há também algo de comovente nesse casal massacrado pelas forças do mercado.
“O Fabricante de Gorros”
A sociedade está sendo dominada por um grupo totalitário e “caça” quem é liberal. E como eles sabem quem é liberal ou não? Usam os chamados “teeps” – pessoas que nasceram com a capacidade de ler a mente de outras. Para esse grupo, quem não é opositor ao governo não tem nada a esconder, então não teria problema em ter a mente lida.
Mas, como era de se esperar, surge um grupo opositor ao governo. Primeiro, eles atrapalham o trabalho dos teeps: desenvolvem um gorro que impede a leitura da mente de quem o usa. Esse gorro é enviado pelo correio para pessoas selecionadas e sem identificação.
O desenrolar dessa história e o plano final do grupo opositor são coisas que vocês têm que conferir por conta própria. Com relação a este conto, infelizmente qualquer informação a mais pode ser um spoiler.

O episódio correspondente a este conto tem o mesmo nome, e o roteirista desta vez foi Matthew Graham. Vejam o que ele tem a dizer sobre o autor da obra:
No meu tempo de formação como leitor, dos 10 aos 18 anos, devorei tudo de ficção científica que me caía nas mãos. Sem nenhuma dúvida, Philip K. Dick foi o mais desafiador e o mais empolgante.
“Foster, você já morreu”
Mike Foster mora em uma cidade que vive em constante preparação para uma possível guerra e/ou ataque nuclear. Por isso, as empresas mal acabam de lançar um abrigo antibombas e antirradiação, e já lançam outro, prometendo sempre que o mais recente é o mais seguro. Acontece que o pai de Mike não concorda com isso.
Por este motivo, Mike e sua mãe sempre são apontados pelas pessoas, desde colegas de escola até vizinhos. O sonho de Mike é ter um desses abrigos em sua casa também, para enfim ser “normal”. Por fim, seu pai acaba cedendo e compra o modelo mais recente. Mas Mike não seria feliz por tanto tempo. Só lendo para saber porquê. 😉
Este conto, apesar de ter como personagem principal uma criança, é o que mais faz críticas abertas ao consumismo exagerado. Além disso, critica também as empresas que se aproveitam da tecnologia para sempre criarem algo novo, tornando o produto que mal foi lançado já obsoleto. Por fim, fala da necessidade que as pessoas têm de sempre terem tudo do bom e do melhor, e quem não tem, é apontado e excluído, o que acaba causando até ansiedade.

Não, a foto não está errada. No episódio, que se chama “São e Salvo”, houve uma boa adaptação da história original, passando a envolver protagonistas mulheres. Os responsáveis por este episódio, Travis Sentell e Kalen Egan, afirmam que:
A obra de PKD permanece tão verdadeira e sagaz hoje quanto era 60 anos atrás – e como continuará sendo daqui a outros 60 anos.
“A Coisa-Pai”
Este é, talvez, o conto mais voltado para o público jovem de todo o livro. Nele, Charles vê seu pai conversando com um homem que é idêntico a ele – e depois seu pai some. Quando “a coisa-pai” assume o lugar de seu pai, Charles logo nota a diferença e pede ajuda de seus amigos para descobrir a verdade e acabar com aquilo.
Logo os amigos descobrem que realmente o menino não mentia, quando acham os restos do pai na garagem. Acontece que alienígenas estão planejando tomar corpos de todos por ali. A missão do trio de amigos passa a ser, então, impedir isso.

Michael Dinner é um diretor, produtor e roteirista, muito conhecido pelo seu trabalho em Anos Incríveis. O episódio tem o mesmo nome do conto, e Michael explica o motivo por ter escolhido adaptar esta história:
Embora parta de uma premissa presente em ficções de outros gêneros, gosto deste conto porque fala tanto sobre a invasão de uma família como sobre a invasão de uma comunidade, de um país ou do mundo todo.
“O Planeta Impossível”
Irma Vincent Gordon, de 350 anos, é a última pessoa viva de toda a sua linhagem. Ela recorre ao capitão Andrews, com a ajuda de seu empregado robô, para comprar uma passagem para a Terra. Quer porque quer ir lá antes de morrer.
O capitão tenta explicar que muitos tentaram encontrar esse planeta, mas sem sucesso. Ou seja, a Terra era um mito, e por isso não poderia lhe vender a passagem. Mas a senhora insiste, então o capitão pesquisa algum planeta com as características mais próximas do que diziam que a Terra teria se existisse, e a leva para lá. Fica o mistério então, se Irma vai ou não conseguir realizar seu último desejo.
Este conto faz uma crítica ao poder de degradação que os habitantes do planeta podem ter. Deixaram a Terra em um estado tão irreconhecível, que os estudiosos do futuro simplesmente não acreditavam que ela existisse, pois nunca encontraram tal planeta cheio de verde e com tanta água.

David Farr, responsável pelo episódio de mesmo nome que o conto, explica que se apaixonou pela proposta de adaptar este história em particular. Para ele:
Para um conto tão pequeno, “O Planeta Impossível” é repleto de uma estranha sensação de perda e nostalgia de muitas coisas, mas, acima de tudo, de uma Terra que não existe mais. Ou será que existe?
“O Passageiro Habitual”
Nesta história, um passageiro aparece dois dias seguidos numa estação de trem querendo comprar bilhetes para Macon Heights… Acontece que Macon Heights não existe. E isso nem é o mais estranho: quando tanto o bilheteiro quanto seu superior, Paine, mostram ao homem o mapa com as estações, ele desaparece. Simples assim.
Paine, inconformado, resolve investigar melhor essa história e pega o tal trem que deveria levar àquela cidade. Para sua surpresa, não é que o trem faz uma parada em Macon Heights??? Só que isso é impossível, porque ela não existe no mapa!
De repente Paine se vê cada vez mais envolvido nessa história, e fica empenhado em resolver o mistério que envolve a tal cidade. Em uma trama que envolve muito suspense, Paine de repente fica imerso em presente, passado e futuro. Quais serão os mistérios que envolvem Macon Heights e quais serão as consequências para quem frequenta este lugar secreto?

Este episódio, de mesmo nome do conto, teve como roteirista e produtor Jack Thorne. Aqui aconteceu algo muito raro: gostei mais do episódio do que do conto, que já é muito bom! De acordo com Thorne:
Como alguém que já leu muita ficção científica, acredito que exista uma diferença entre escritores que têm ideias e escritores que constroem mundos. PKD constrói universos. Mas o que mais admiro nele – e o que acabou me atraindo para este conto – é que ele sempre encontra o ordinário no extraordinário.
“O Enforcado Desconhecido”
Loyce está chegando à loja de sua esposa, Janet, quando vê um corpo humano pendurado em um poste. Ele chama socorro, mas as pessoas nem ligam. Apesar de estarem vendo também, elas achavam que Loyce estava doente ou maluco por estar reagindo com revolta.
Loyce corre para a delegacia para comunicar sobre o corpo mas, chegando lá, vê uma espécie de fenda e umas criaturas, parecidas com insetos esquisitos, então cria uma teoria: alienígenas chegaram a Pikeville e se apossaram dos corpos de todos, por isso ninguém demonstrava emoções.
Será que a teoria do protagonista estará correta? E por que só ele, aparentemente, não tinha sido afetado? Esse conto tem reviravoltas e um final de explodir a cabeça. Foi o meu preferido!

Diferentemente do conto, o título do episódio correspondente é “Mate Todos os Outros”, cuja responsável foi Dee Rees, como roteirista e diretora. Rees disse:
‘Indo para casa – com suas mentes amortecidas’
Essa é a frase que ecoa da narrativa retorcida de “O Enforcado Desconhecido” – e também a frase singular e brilhante que me fisgou para escolher esse conto.
Mas afinal, vale a pena?
Tanto o livro quanto a série valem muito a pena. No entanto, achei melhor a experiência de ver depois de ler. Eu já tinha visto alguns episódios antes da leitura do livro, mas depois de ler, revi a série com outros olhos. A essência de cada conto está lá, o que facilita a compreensão da mensagem de Dick.
Por fim, a título de curiosidade, meus contos preferidos foram: “Peça de Exposição”, “Humano é”, “Foster, você já morreu”, “O Passageiro Habitual” e “O Enforcado Desconhecido”.

A quem me acompanhou até aqui: muito obrigada! Espero que tenham ficado curiosos e deem uma chance ao livro e à série! Se você gosta de distopias, é aposta certa! Até breve 😉
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