Jack White está de volta com “No Name”, um álbum que remete ao seu período mais explosivo e cru, evocando a essência do rock de garagem que marcou sua carreira com o White Stripes. Lançado de forma inusitada, com cópias de vinil sem nome sendo distribuídas a clientes desavisados da Third Man Records, o álbum já causou burburinho antes mesmo de seu lançamento oficial. E, ao pressionar o play, fica evidente que White voltou a fazer o que sabe melhor: música direta, potente e carregada de emoção.
A Simplicidade de No Name
O álbum abre com “Old Scratch Blues”, uma faixa que imediatamente transporta o ouvinte de volta ao som cru e não polido que fez de White um ícone do rock. Em contraste com os trabalhos anteriores, como “Fear Of The Dawn” e “Entering Heaven Alive”, que exploraram terrenos sonoros mais diversos e até experimentais, “No Name” é uma volta às raízes. Aqui, White se firma no terreno do lo-fi e do garage rock, sem as firulas e polimentos que às vezes faziam com que suas últimas produções soassem excessivamente elaboradas.
A faixa final, “Terminal Archenemy Endling”, destaca-se não apenas por suas letras introspectivas, mas também pela sensação de familiaridade que permeia a música. Com versos como “Where would I be if I didn’t know you?” e “What’s the point of being free if I’m all alone?”, White reflete sobre o conforto de um relacionamento sólido e a segurança que isso traz, após anos de inquietação criativa. Essa faixa, em particular, carrega uma sonoridade que remete ao classic rock, com um groove que lembra uma fusão entre “Are You Experienced” e “The Same Boy You’ve Always Known”. Embora muitos possam inicialmente interpretar essas letras como um tributo a sua antiga parceira de banda, Meg White, é mais provável que sejam dirigidas à sua esposa, Olivia Jean, com quem ele se casou em 2022.
A Facilidade de White em Transitar Entre Estilo
O que torna “No Name” tão interessante é justamente o seu retorno a um som mais simples e menos pretensioso. White, conhecido por sua habilidade em transitar entre diferentes estilos musicais, aqui parece encontrar paz ao retornar ao básico, explorando os mesmos riffs e progressões de acordes que o tornaram famoso. Faixas como “Archbishop Harold Holmes” evocam o som de “Hello Operator”, não tanto em termos de estrutura, mas na energia bruta e na liberdade que exalam. É como se White estivesse relembrando os dias em que a simplicidade era sua maior aliada, criando música que, embora menos experimental, ainda assim ressoa com força.
Isso não quer dizer que o álbum carece de variedade. “Underground”, por exemplo, oferece uma pegada country-fried, enquanto “Number One With A Bullet” acelera o ritmo com uma urgência quase punk. Mesmo com essas variações, “No Name” mantém uma coesão estética, com White preferindo manter-se dentro de um escopo sonoro específico, em vez de explorar novas fronteiras.
Liricamente, White está em sua melhor forma, entregando frases que capturam seu ponto de vista único e, ao mesmo tempo, soam universais. Linhas como “As bad as we got it, it sure must be rough on rats” são entregues com um vigor que lembra seus dias mais incendiários, enquanto ele também direciona algumas críticas vagas à religião, aos detratores e à sociedade pós-verdade.
O que realmente diferencia “No Name” de outros trabalhos recentes de White é a sua autenticidade despretensiosa. Não há aqui a sensação de que ele está tentando provar algo, ou forçando uma nova direção criativa. Em vez disso, o álbum se desenrola com naturalidade, como se White estivesse simplesmente fazendo a música que ama, sem se preocupar em inovar ou surpreender. E essa honestidade é precisamente o que dá ao álbum seu poder duradouro.
Ouvindo “No Name”, é fácil perceber por que Jack White continua a ser uma força dominante no rock. Ele é um artista que, mesmo quando retorna ao básico, consegue infundir suas músicas com uma energia e uma vitalidade que muitos de seus contemporâneos perderam ao longo dos anos. “No Name” pode não ser o álbum mais inovador de White, mas é, sem dúvida, um dos mais autênticos e, por isso, merece ser celebrado.
Conclusão
Este é um álbum que prova que, às vezes, voltar às raízes pode ser a melhor forma de seguir em frente. Jack White entrega um trabalho que, mesmo não reinventando a roda, mostra que ele ainda está no auge de seus poderes criativos, pronto para continuar a escrever sua lenda no mundo do rock.
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