O documentário Elis & Tom, Só Tinha de Ser com Você foi dirigido por Roberto de Oliveira ao lado de Jom Tob Azulay, o roteiro ficou a cargo de Nelson Motta. A produção é da Rinoceronte Entretenimento e a distribuição da O2 Play.O empresário de Elis Regina na época, Roberto, concedeu ao Kolmeia uma entrevista muito interessante. Na qual, destaca a importância do filme em mostrar Elis e Tom para públicos que não os conhecem.
Roberto está há mais de 50 anos atuando como produtor e diretor, e está por trás de momentos emblemáticos da música popular brasileira. Seu currículo inclui a série Chico, sobre Chico Buarque, a série Maestro Soberano, sobre Tom Jobim, a série Biograffiti, sobre Rita Lee, e Falso Brilhante, de Elis Regina. Elis & Tom, Só Tinha de Ser com Você é seu primeiro longa-metragem.
Confira a entrevista com Roberto de Oliveira sobre Elis e Tom a seguir
Kolmeia: O que fez você se envolver tanto com obras sobre artistas brasileiros, visto que você já fez séries sobre Chico Buarque, Tom Jobim, Rita Lee e Elis Regina?
Roberto de Oliveira: Desde que comecei a minha carreira no circuito universitário eu tratava de artistas brasileiros que frequentavam o circuito. E aí fui me aproximando e gostando, sempre com o sentimento de que eu tinha que registrar tudo que fosse possível. Por isso comecei a fazer televisão. Eu ficava muito preocupado quando via um show ao vivo, onde acontecem coisas geniais e de alta qualidade artística, e aquilo não estava registrado. “Como pode? Ninguém mais vai ver esse momento”. Aí comecei a me ocupar muito com o registro e hoje tenho um acervo muito grande de material que eu gravei e fotografei. Sempre com essa preocupação de registrar uma música muito boa e importante, que é a música brasileira, uma das melhores do mundo. Inclusive, quando viajam/vão para fora do Brasil se tornam sucesso. O que deveria estimular álbuns de fomento culturais a tentar levar mais conteúdo do Brasil para fora. Esse filme tem um pouco esse objetivo, viajar bastante e mostrar Elis e Tom para públicos que não conhecem os dois artistas.
Roberto utilizou uma câmera 16 milímetros para registrar as gravações do icônico álbum feito entre Elis e Tom, as imagens foram restauradas para o 4k e fizeram grande parte do documentário que intercala depoimentos de pessoa envolvidas no projeto e de familiares dos músicos.
Kolmeia: Como foram as filmagens deste período que marcou a história da música brasileira?
Roberto de Oliveira: Eu era empresário da Elis. A gente tinha feio o circuito universitário – shows nas universidades do interior, principalmente no sudeste – e a Elis me convidou para ser empresário dela. A gente estava procurando um grande evento para melhorar o prestígio dela, porque ela estava recebendo críticas em função de projetos feitos, e achamos que precisava de um evento para dar um “up” no prestígio dela. Então fizemos um encontro com o Tom lá em Los Angeles. Gravamos um disco, Elis & Tom, que se tornou um icônico. O mundo inteiro ouve esse disco. Quando eu estava lá resolvi captar as imagens desse encontro, porque eu achava que era um encontro histórico, e aí montei uma equipe lá em Los Angeles e captei o material que foi transformado agora nesse filme.
Na época da Ditadura Militar no Brasil, Elis se apresentou nas Olimpíadas do Exército com medo das perseguições que os artistas sofriam na época pelos militares, e foi duramente criticada pela população. Enquanto Tom que estava vivendo em Los Angeles sentiu falta de popularidade no Brasil. Foi nesse momento que surgiu o convite da gravadora Phonogram de fazer um disco em conjunto.
Da esquerda para a direita estão Igor Kupstas diretor da O2 Play, Roberto de Oliveira e Diogo Gonçalves produtor do filme.
Foto: Isabelle Bulla
Kolmeia: Em outras entrevistas você contou que Elis e Tom tiveram muitos atritos. Em algum momento você pensou em desistir do projeto?
Roberto de Oliveira: Não. Nunca pensei em desistir do projeto mesmo com as dificuldades, que eram muitas, e os desencontros entre os dois. Eu sabia que no final ia dar certo, nunca tive dúvida disso. Sabia que seria difícil, e foi. O início foi muito conturbado, os dois tinham diferenças. A Elis ficou intimidada em relação ao Tom, porque era um monstro sagrado para ela. O Tom tinha algumas restrições ao topo de música que a Elis fazia, muito baseado na potência da voz. Mas no final eles se adaptaram. O Tom se descontraiu e a Elis ficou mais à vontade com ele. Ela começou a aprender um pouco do minimalismo jobiniano, a trabalhar melhor a interpretação dela – no sentido de ser mais calma –, valorizar a interpretação, trabalhar com silêncio e com pausas. Ela foi entrando no esquema do Tom, e na forma que ele fazia sua música. Isso permitiu que eles acabassem com um entrosamento muito grande. Eram dois talentos enormes. Na hora que esses talentos se reconheceram, virou uma obra de arte. A arte tem esse poder de juntar contrários e fazer com que a criatividade humana transforme qualquer coisa em uma coisa bonita.
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