ALERTA DE SPOILER: Saiba que esse artigo contém spoilers sobre The Last of Us 2, então leia por sua conta e risco!
Finalmente o tão esperado novo título da Naughty Dog foi lançado. Ainda por cima, quebrando o recorde de pré-venda exclusiva de PS4 mais vendida no Brasil. Mesmo com os inesperados vazamentos, The Last of Us 2 tem se sobressaído acima do esperado. Desta vez, o jogo veio para debater algo além da vingança que veremos a seguir.
Enquanto aguardarmos uma aventura com Ellie e Joel, somos alvejados nos momentos iniciais com a morte da figura paterna de Ellie sendo alvejado por pancadas de um taco de golfe. Partindo deste ponto e “protagonizando” a trama, Ellie sai em sua jornada de vingança buscando eliminar Abby e todo o grupo que esteve presente durante a morte de Joel.

Talvez, uma das cenas mais marcantes da história dos videogames até o momento por seu peso dramático e sua violência brutal. Quaisquer jogadores que tivessem um laço afetivo com o personagem, certamente neste instante ficaram malucos por vingança. Mas o que teria levado Joel a um fim tão cruel, violento e trágico?
Paralelamente a busca de Ellie por vingança, somos apresentados ao ponto de vista de Abby Anderson como personagem jogável. Sem dúvidas, algo muito enriquecedor para a trama e ambas personagens, principalmente para conhecermos as motivações de Abby. A suposta antagonista do game.
Quem é Abby?
Ao jogarmos com Abby, descobrimos a facção chamada de Frente de Libertação de Washington (WLF) a qual ela faz parte. A mesma é formada por militares extremamente hostis e ao grupo de sobrevivente dos Vaga-lumes. Outra descoberta surpreendente é, nem de longe, Abby é uma vilã gratuita. Muito pelo contrário, a grande vilã desta vez é Ellie. E sim, The Last of Us 2 é sobre a Abby e sua história sobre uma vingança que não valeu a pena.

Da mesma forma que a comunidade em Jackson onde vive Ellie, a WLF, comandada por Isaac Dixon, também construiu sua comunidade em um estádio em Seattle. Com isso, a facção conquistou melhores condições de vida, contando com escolas, ginásio, área de treino, fazenda e afins.
Notoriamente, uma perspectiva de desenvolvimento e progresso coletivo. Porém, como diversas facções, com problemas internos de gestão do tipo “sacrifícios devem ser feitos”. O que ao longo do game reflete na desnecessária morte de diversos membros da WLF pela incansável conduta de conquista de Isaac.
As marcas da vingança em The Last of Us 2
Inicialmente a Abby pode passar uma primeira impressão de frieza pela forma como assassinou Joel. No entanto, ao jogar com ela notamos seus sentimentos pelos seus colegas de equipe e até mesmo, seu lado amoroso. Além disso, somos apresentados a sua grande motivação que é alimentada pela perda de seu pai, o Dr. Jerry Anderson integrante dos Vaga-lumes.
Caso não se recorde dos Vaga-Lumes, eles são um grupo, liderado pela Marlene, que unem forças para buscar a cura da infecção do cordyceps. O Tal fungo que se alastrou por toda a humanidade no primeiro The Last of Us.
Talvez você se recorde dos doutores na sala de cirurgia quando Joel resgata Ellie. Pois é, o primeiro doutor que te ameaça ao entrar na sala era o pai de Abby. Embora na gameplay do primeiro jogo seja opcional assassinar os demais médicos, pois há a possibilidade de desarma-los, nesta sequência, a morte de Jerry Anderson é a única que não da para ser evitada.

Certamente, a escolha de resgatar Ellie custou muito caro, afinal a impediu de ser usada para desenvolver a vacina salvadora da humanidade. Ademais, tirou seu único propósito de vida, segundo a própria personagem. Com isso, durante o emocionante resgate muitos integrantes inocentes dos Vaga-Lumes foram executados por Joel.
Sobretudo, a líder Marlene que teve sua vida tirada por Joel. Finalmente todo o sacrifício foi realizado, somente para ter em seus braços o seu único laço afetivo que lhe lembrava sua própria filha Sarah. Ou como disse o próprio Joel no último flashback de The Last of Us 2, a sua “segunda chance”.
O caminho para redenção de Abby
Portanto, a maior motivação de Abby é pautada em vingar a morte de seu pai. No entanto, seus flashbacks mostram que além de seu lado brutal, também há um conflito amoroso mal resolvido. Afinal, vemos o amor que ela carrega por Owen, seu companheiro desde a época dos Vaga-lumes. Aliás, Owen sempre tentou fazer com que Abby esquecesse a vingança e vivesse em paz. Entretanto, o combustível de boa parte vida de Abby era concretizar a vingança. Algo que mesmo concretizado nunca trouxe a satisfação que ela almejava.
Durante sua jornada, Abby teria que lidar com seu segundo antagonista, o líder da WLF Isaac enquanto misteriosamente cada um de seus companheiros da WLF iam morrendo. Algo que Abby acredita ser motivado por Tommy, mas mal sabia ela que na verdade era Ellie, sedenta e cheia de ódio, ansiando por um encontro definitivo entre as duas.

Além de lidarem com seus conflitos pessoais, tanto Abby quanto Ellie terão um antagonista em comum, os Serafitas. Estes, por sua vez, são a seita religiosa extremista de seguidores da Profetisa que desejam purificar o mundo. Mas para Abby, seria a porta de entrada para uma redenção após conhecer Lev e Yara.
Embora os Serafitas hoje ataquem membros da WLF, no passado já houveram tempos de paz entre as facções. Porém interesses divergem, novos líderes assumem o manto e o ciclo de violência continua. No futuro abordaremos os Serafitas em um novo artigo, aguarde!
Parafraseando Jean-Paul Sartre: O inferno são os outros
Já dizia o filósofo francês Jean-Paul Sartre, “O inferno são os outros”. Afinal, para The Last of Us 2, tudo dependerá do ponto de vista de quem estamos acompanhando. Certamente Ellie será tão vilã para Abby quanto Abby será para Ellie.
As ações tomadas por ambas personagens atingem diretamente aos demais. Sobretudo, ao refletir em como as decisões de Ellie podem ir mudando por serem afetadas por outros indivíduos. De fato, podemos ver similaridades a filosofia de Sartre.

Especialmente por decisões que podem entrar em conflito com o objetivo do próximo. Por exemplo, a Abby se vingando de Joel e tirando a figura paterna de Ellie. Desse modo, essas escolhas se tornam um espelho para a sociedade.
Tal espelho que ensina as personagens que a violência é a única e verdadeira opção. Colocando seus amigos em evidência durante o ataque a Joel, Abby acaba expondo seus pontos fracos a Ellie que passa a caçar um a um, se tornando o “inferno” de Abby. Mas Ellie ultrapassa as últimas instâncias consumida pelo rancor e ódio. Algo que Abby nunca fez, sendo misericordiosa com Ellie em alguns momentos do game.
Inegavelmente, ao jogar com Abby notamos o quanto sua motivação a faz tão protagonista quanto a Ellie. Inclusive, o título tem um ótimo equilíbrio ao alternar as duas personagens durante o jogo. A ponto de humanizar tanto ambas que a sensação ao concluir o jogo é de que não houve vitória ou satisfação. A conclusão de TLoU2 traz uma sensação de desolação, mostrando até onde seres humanos chegam para manter uma vingança que já havia perdido o sentido. Quando afirmo isso, certamente me refiro a Ellie e Tommy. Quantos infernos diferentes eles não criaram para todos a sua volta? Fica a pergunta.
Abby, a verdadeira protagonista do jogo
Agora voltando a falar sobre exercer o protagonismo diante de toda a trama, podemos afirmar que Abby o exerce mais. Justamente por acompanharmos seu desenvolvimento humano, sua origem e sua redenção. Algo que demonstra sua humanidade, pois demonstra sentimentos como amor, empatia, ódio e tristeza. Algo que nem de longe a Ellie refletiu tanto, pois embora a trama girasse em torno de si, era a história de Abby que estava sendo amplamente desenvolvida. Dessa forma, Ellie passa a ter um protagonismo mais secundário.
Dito isso, vale o questionamento de como identificamos um protagonista e um personagem principal! Pois bem, como citado no exemplo da Abby, devemos identificar se estamos acompanhando a perspectiva dessa personagem. Caso sim, outros fatores como Tomada de Decisão, Processo de Transformação e a Mudança na Estrutura da Trama e origem também contam. A personagem teve esses elementos em sua trama? Sim!

O que faz de um personagem o protagonista da ficção?
Diante disso, categorizamos como Tomada de Decisão da Abby, quando ela se decide eliminar Joel, sendo assim, seu principal objetivo. Vale também exemplo como salvar Yara e Lev e claro, se vingar da morte de seus companheiros, assassinados por Ellie.
Já o Processo de Transformação atribuímos aos momentos de crescimento enquanto indivíduo. Um bom exemplo disso são os momentos com pai e seu namorado Owen durante a juventude. Aliás momentos que são aproveitados para contar a origem da personagem
A última etapa de sua transformação é sua redenção, quando resolve viver uma vida diferente com Lev, aceitando que não precisava se vingar mais de Ellie pelos ocorridos. Aliás, aprendendo com a história de vida de Lev, que perdeu a mãe e a irmã, mas que entendeu como funciona o ciclo de violência, e passa a não se expor a isso.
Por fim, contamos também com a Mudança na Estrutura da Trama causada por Abby e a forma como suas decisões influenciam toda a história. Certamente, um bom exemplo disso é a consequência que Abby sofre ao salvar Yara e Lev. Algo que muda drasticamente o encaminhamento da trama. Sobretudo por torná-la deste momento em diante inimiga da WLF por ter salvado crianças Serafitas. Ou seja, problemas com Isaac… rs.
Abby e Ellie, entre o protagonismo e antagonismo
Com toda certeza, tanto Abby quanto Ellie exercem ambos o protagonismo e antagonismo, uma para a outra. Por exemplo, a Ellie passa a antagonizar ao se opor aos objetivos de Abby, indo contra as suas ações. Especialmente ao assassinar personagens o qual Abby possui um laço afetivo. Porém isso é quando observamos sob a ótica das personagens. Como dito anteriormente, para a trama e sob a ótica do jogador, certamente essa é a história de Abby.
Outro ponto importante: Há uma diferença entre personagem principal e o protagonista? A resposta é sim! Isto é visto em The Last of Us 2 claramente com personagens ligados diretamente a trama sendo construídos, como Dina, Lev, Yara e etc.
Dessa forma, por serem personagem muito presentes, o elenco de apoio é cheio de personagens principais. Porém não vemos seu processo de transformação, seu ponto de vista ou tomadas de decisões que mudem a estrutura da narrativa e sua origem. Vale lembrar que embora Ellie continue em desenvolvimento, a base de natureza, origem e comportamento dela foi construído desde seu game antecessor junto a DLC Left Behind.

Sim, Ellie foi longe demais
Enfim, embora todo o processo ocorra para torná-las personagens fortes, maduras, conseguindo seguir em frente em suas vidas, ambas ainda não se veem livres das consequências de seus atos. Tais consequências que geram uma cadeia de violência e sofrimento para todos envolvidos da narrativa. Inclusive, motivo pela qual a Dina se afasta de Ellie, pois todos em volta dessa incessante vingança acabam involuntariamente tendo seus destinos selados.
Concordar com está essa vingança iria contra o senso materno de Dina, afinal ela deseja que seu filho J.J e ela não sejam mais uma vítima. Assim como Mel ainda grávida foi vítima de Ellie. Uma vingança que demonstra a frustração de Ellie que perdeu todos que amava e que cuidavam dela desde criança. Dessa forma, segundo a ótica da personagem, todos que estavam no recinto da morte de Joel deviam pagar e seria justo tirar todos eles de Abby.
(Desta vez, não comentarei todos os spoilers para atiçar sua vontade de jogar essa obra! Com isso, você mesmo sentirá a experiência de transformação e se surpreenderá com o final.)
Um abraço e até o encontro do mais forte!