
Ao contrário de “Father of the Bride” (2019), apresentado como um projeto solo, “Only God Was Above Us” é um verdadeiro trabalho em equipe. Afinal, a formação original de 2006 está de volta, com o baterista Chris Tomson e o baixista Chris Baio reintegrando a banda oficialmente. Além disso, o multi-instrumentista Rostam Batmanglij colabora com a banda em estúdio. Segundo Koenig, o hiato de cinco anos entre os lançamentos foi utilizado para “relaxar” com sua esposa e filho, além de explorar cidades como Londres e Tóquio.
Mergulhando em Only God Was Above Us
O trauma dos eventos mundiais recentes se faz presente tanto no som quanto nas letras das novas músicas. No entanto, as melodias vibrantes de Koenig nos convidam a dançar e seguir em frente, mesmo em meio às adversidades. A faixa de abertura, “Ice Cream Piano”, remete aos fãs antigos com sua guitarra distorcida e reflexões sobre guerra e paz, antes de explodir em um ritmo frenético, perfeito para agitar festivais de verão.
Em “Classical”, encontramos a típica melodia “pingue-pongue” da banda, flutuando sobre uma batida trip-hop dos anos 90. As doces vocais de Koenig passeiam por imagens de pontes em chamas, corpos se quebrando e templos desmoronando – colocando os conflitos modernos em um contexto histórico. Assim como Paul Simon, Koenig é um letrista e vocalista que conversa com o ouvinte, em vez de adotar um tom de pregação.
Ele usa palavras rebuscadas, aparentemente tanto pelo som quanto pelo significado. Koenig admite ter sido um “intelectualzinho” no passado. Agora, porém, ele exibe seu conhecimento de forma menos ostentosa, mas igualmente lúdica. Por exemplo: em “Classical”, ele brinca com a ideia paradoxal de que o “nada dentro do seu DNA” é uma catástrofe… e ao mesmo tempo, nada disso realmente importa. Ele levanta as mãos em desalento ao perceber que “o cruel, com o tempo, torna-se clássico”. A leveza da melodia é irresistível.
A ideia do tempo profundo também permeia o ritmo mais lento de “Capricorn”. A saber, nessa canção, guitarras e teclados raspam notas dissonantes e obscuras, como placas tectônicas sob dedilhados acústicos suaves que remetem ao soft rock dos anos 70.
“Connect” traz um turbilhão de pianos, bongôs e contrabaixo jazzístico, onde Koenig alcança casualmente seu falsete como um cantor da velha guarda. Dev Hynes, do Blood Orange, participa tocando bateria em “Prep School Gangsters”, após uma lesão o forçar a abandonar o baixo.
Em “Gen X Cops”, Koenig reconhece que o tempo garante que “cada geração faça seu próprio pedido de desculpas”, com linhas de guitarra que gritam e brilham como trens do metrô de Nova York cortando a escuridão.
Embora estejam agora sediados em Los Angeles, o Vampire Weekend faz referências à sua cidade natal ao longo do álbum. Em “Mary Boone”, com sua batida folgada, coro e palmas, a banda celebra a negociante de arte septuagenária que expôs obras pioneiras de Julian Schnabel e Jean-Michel Basquiat até ser presa por fraude fiscal em 2018. Ela ainda é famosa por apontar que, nos anos 70 e 80, a violência e a pobreza de Nova York davam às pessoas mais tempo para se concentrar na arte. Koenig parece sugerir que os desafios modernos podem nos permitir o mesmo.
A faixa final de oito minutos, “Hope”, leva seu tempo para elevar suavemente o ânimo, como um pai colocando a mão no queixo do filho e lhe dando um beijo na testa. Em cima de uma batida pesada, baixo pulsante, piano suave e metais crescentes, Koenig repete “espero que você deixe ir” como um mantra.
Conclusão
Embora “Only God Was Above Us” seja um épico da Guerra Fria que abrange continentes, o Vampire Weekend não consegue deixar de retornar às lembranças de transgressões juvenis em sua base em Nova York. Inclusive, “Pravda” (cujo título, como a música nos diz, é a palavra russa para verdade) oscila entre a União Soviética e o Meio-Oeste antes de recuar para uma memória em primeira pessoa de trabalhar em uma loja de gravatas na Penn Station. Mais do que a maioria, esta é uma banda magneticamente atraída pelos sons, imagens e estética que os definem.
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