“Mirai”: uma história simples que acerta justamente por isso
Indicado ao Oscar de Melhor Animação, Mirai (2018) é um daqueles filmes que parecem pequenos à primeira vista, mas crescem conforme a história avança. Dirigido por Mamoru Hosoda, o longa aposta em um conflito cotidiano (o ciúme de um irmão mais velho) para construir uma narrativa delicada e surpreendentemente profunda.
A trama acompanha Kun, um menino que vê seu mundo mudar completamente com a chegada da irmã caçula. A partir daí, o filme se desenvolve em torno dessa quebra de rotina, explorando emoções que são tão universais quanto difíceis de traduzir.
O desconforto honesto da infância
Assistir Mirai não é sempre confortável — e esse é um dos seus maiores méritos.
Kun não é o típico protagonista carismático. Ele é birrento, ciumento e, em vários momentos, difícil de gostar. Mas é justamente essa construção que torna o filme mais real. Mamoru Hosoda não tenta suavizar o impacto emocional da chegada de um novo membro na família — ele abraça o desconforto.
Ao fazer isso, Mirai se distancia de animações mais convencionais e entrega uma experiência que parece muito mais próxima da vida real do que de um conto fantasioso.
O elemento fantástico surge quando Kun descobre um jardim mágico que permite viajar no tempo. No entanto, essas viagens estão longe de serem o foco principal. Cada encontro com versões passadas e futuras de sua família funciona como uma extensão dos sentimentos do protagonista. É menos sobre entender o tempo e mais sobre entender o próprio lugar dentro da família.
O roteiro evita explicações excessivas e confia na sensibilidade do espectador, criando uma narrativa que se revela aos poucos, típico de longas animados japoneses.
![Analysis] Mirai – Hana Ga Saita Yo](https://hanagasaitayo.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/11/il-film-mirai-mamoru-hosoda-vince-premio-miglior-film-d-animazione-v4-366968.jpg)
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Mamoru Hosoda e a delicadeza de contar histórias sobre família
Conhecido por obras como Crianças Lobo, A Garota que Conquistou o Tempo e Guerras de Verão (todos disponíveis no Filmelier+), Mamoru Hosoda reforça em Mirai sua habilidade de transformar histórias íntimas em experiências universais. Aqui, a animação acompanha esse tom mais contido: cenários domésticos, ritmo contemplativo e uma direção que prioriza o emocional ao invés do espetáculo. É um filme que pede paciência, mas recompensa quem se entrega.
Vale a pena assistir?
Mirai não é uma animação explosiva ou cheia de reviravoltas. É um filme silencioso, que constrói seu impacto aos poucos.
No fim, ele fala menos sobre viagem no tempo e mais sobre crescimento e auto-conhecimento — sobre como momentos aparentemente pequenos moldam quem a gente é.
Disponível no Filmelier+ a partir de 12 de março, o longa integra a retrospectiva de Mamoru Hosoda, que também traz outros títulos essenciais do diretor. Uma ótima oportunidade para descobrir — ou revisitar — uma das vozes mais sensíveis da animação contemporânea.









