Pela primeira vez, traremos o novo quadro KolmeiAnálise! Este será um quadro periódico onde traremos alguma obra (série, filme, curta, etc.) e colocaremos na nossa lupa. Durante o texto, iremos destrinchar elementos do que está sendo analisado, como imagem e roteiro. Será uma forma de dar uma visão crítica e individual de algo do nosso interesse para o nosso público. Portanto, esperamos que gostem! Neste KolmeiAnálise, trouxemos Ad Astra – Rumo às Estrelas, filme de 2019 dirigido por James Gray. Aproveitem!
Ad Astra – Rumo às Estrelas foi lançado sem muitos holofotes, mas mostrava um trailer interesante e uma premissa promissora. O enredo nos leva a acompanhar Roy McBride (Brad Pitty), um astronauta estadunidense que precisa encarar uma viagem até os confins do sistema solar para descobrir o paradeiro de seu pai, Clifford McBride (Tommy Lee Jones). Roy enfrenta uma jornada não apenas difícil, como também exaustiva e perigosa. Uma jornada que irá expor seus fantasmas, brincar com sua sanidade e questionar quem ele de fato é. Uma história que facilmente aguça nossa curiosidade. Entretanto, será que iriam saciar nosso interesse?
Um filme de potencial tão grande a ponto de alcançar patamares como os de 2001 – Uma Odisséia no Espaço, Ad Astra enche nossos olhos de maravilhas visuais e situações complexas. O longa-metragem acaba se mostrando uma trama intrincada e com ótimas questões existencialistas e emocionais. O filme sabe se aproveitar do seu gênero e levantam ótimas reflexões que costumamos ver em ficção científica. A premissa é ótima e o universo não muito distante da realidade deixa um forte gosto de verossimilhança muito. Uma obra digna de ser lembrada e comentada. Contudo, a visão descompassada da direção peca bastante no desenvolvimento da história e o filme acaba deixando a desejar nesse quesito.
UM PROBLEMA DE CONTINUIDADE
O filme aparenta tentar buscar tais questões citadas acima e trabalha sua trama em torno delas. Com o caminho que a narrativa escolhe seguir, de fato poderíamos ter visto um filme espetacular e bem diferente do usual. Entretanto, a pressa e o pouco cuidado do roteiro em entregar estas questões acabou fazendo elas se tornarem bobas e pouco impactantes.
Infelizmente, essa pressa do filme para chegar nos “finalmente” acaba afetando uma das características mais interessantes do gênero. Com isso, o que vemos é um roteiro que torna as suas nuances existencialistas pouco importantes na própria história. Pensamentos recorrentes como a natureza humana e o lugar do humano frente ao universo aparecem no filme, porém mal abordados.

Tais questões presentes na trama, por vezes, passam tão rápido no enredo que sequer lembramos as vezes que se tentou abordar tal tema. E apenas tentou mesmo, pois não há um momento destinado a refletir isso diretamente, deixando a discussão em segundo plano. As reflexões estão lá inerentes como em boa parte das ficções científicas, mas expostas apenas subjetivamente. Tal fato passa a sensação de que os desenvolvedores tiveram pouco interesse nisso para enfatizar outra marca do filme: a ação.
A primeira metade da obra é frenética. Vemos muita coisa acontecendo e o protagonista é jogado cada vez mais fundo na sua jornada. São apresentadas situações tensas, perigosas e até traumáticas a Roy, que usa sua resistência e inteligência para transpassar suas dificuldades. Tudo isso demonstra em Roy um impacto muito forte psicologicamente e emocionalmente, fato que a obra se propõe a trabalhar. Contudo sequer conseguimos ver expresso no protagonista o peso destas situações devidamente. Acaba ficando um tanto sem sal, como se tivesse apenas sendo jogado pra gente como uma espécie de só pra não dizer que não tem.
MUITO CONTEÚDO, POUCO TEMPO
Analisando a situação, boa parte dos problemas de roteiro citados talvez fossem resolvidos com mais uma meia hora de filme, talvez uma hora. A perspectiva da obra é realmente muito boa e tenta trazer pessoas que, embora acostumada com a tecnologia e os avanços do homem pelo universo, ainda são muito ingênuas em relação a tais avanços. É um viés que vai além do homem sabendo de grandes respostas de perguntas atuais, mas como ele processaria isso… E mais importante, o quanto buscar tais respostas pode ter custado. É um longa que tinha tudo para ser grandioso e de impacto gigante não apenas nas premiações, mas no público. Porém, a condução do roteiro acabou tirando essa oportunidade.

Para tentar visualizar melhor meu ponto de vista, vamos enxergar o roteiro em fases, como se ela avançasse conforme o protagonista fosse adiante. O astronauta Roy se depara com muitas questões sobre a finalidade de sua missão, os segredos que seu pai guardava. Ao mesmo tempo, acaba tendo que enfrentar interiormente questões humanitárias e perguntas que assolam a humanidade por anos. Tudo isso somado a relações bem envolventes com personagens chaves, lidando diretamente com a morte e com o impacto de decisões ruins das pessoas.
Simultaneamente, Roy encara também problemas pessoais sobre quem ele é, no que acredita e no que ele quer. Tudo isso rolando ao mesmo tempo em que ele avança através dos planetas em busca de contatar seu pai. Os assuntos aqui tratados aparentemente avançam conforme Roy avança na sua viagem, quanto mais distante da Terra, mas ele reflete sobre tudo isso e mais o espectador é exposto a isso. Mas e se lembrarmos que Roy alcança seu pai em cerca de 1 hora de filme?
O IMPACTO DA DURAÇÃO NO DESENVOLVIMENTO DA TRAMA

Praticamente toda a segunda parte vai se focar na sua situação em família, descobrir o paradeiro de seu pai e tentar voltar para a Terra – e problema algum tanto tempo para abordar tais fatos – . Contudo, isso acaba tomando muito espaço de tela da jornada em si, tão interessante quanto sua resolução. Com isso todas as qualidades que eu apontei anteriormente ficam vagas, com pouco impacto. Parecem questões jogadas e, em alguns momentos, sem nexo algum. Os tais personagens importantes surgem do nada, sem muito efeito em nós, e morrem tão abruptamente quanto aparecem. O público sequer tem tempo de simpatizar com ele e sentir sua morte, muito menos entender o peso disso.
As questões humanitárias que Roy enfrenta se resumem a perguntas que ele deixa no ar, sem muito cabimento com a trama, durante a gravação do seu diário. Perguntas que, em alguns momentos, sequer aparentam relação com os eventos que acabaram de ocorrer. Ficam apenas jogadas e parecem não ter função narrativa alguma. O filme perde todo seu impacto e acaba soando clichê por tais razões. Tudo isso por causa da falta de tato da direção em contar bem seu roteiro, com o tempo devido para digerir tudo que foi entregue. Nada disso torna a obra ruim, o filme continua interessante e impressionante, mas acaba fazendo ele ser menos do que poderia.
UMA EXPERIÊNCIA VISUAL QUE VALE A PENA

Como dito, o longa não se resume aos seus problemas. Pelo contrário, a experiência visual do que está sendo entregue é estonteante. Somando isso a alguns ótimos acertos da direção e do roteiro, o que acaba sendo entregue é algo muito bom quando acerta. Em uma determinada fase do filme, o nosso protagonista precisa fazer uma viagem bem longa. Roy passa meses sozinho em uma nave se esforçando para não deixar a falta de gravidade e a solidão o enlouquecerem. Nesta parte, a direção acerta em cheio em mostrar uma progressão lenta dos impactos que a solidão traz. O espectador pode, lentamente, sentir como aquela situação tortura Roy aos poucos. É um desenvolvimento bem feito e, por acertar na entrega não tão direta dos fatos com uma progressão torturante, acaba sendo uma das melhores sequências do filme.
Tais acertos elevam bastante o filme, ainda mais somados a algumas cenas incríveis de contemplação. Ver a Terra da Lua, observar os locais que Roy passa, ambientação, fotografia… É tudo muito estonteante, imagens que valem a pena serem vistas. Tais fatores observados entre tantos momentos de tirar o fôlego fazem o filme uma experiência visual impressionante. O longa se mostra extremamente bonito, com ação empolgante e situações que te fazem sentir na pele a tensão.
O filme transita bastante, indo desde uma perseguição na superfície lunar até atmosferas opressivas e densas de Marte. Uma etapa de cada vez, as adversidades mudam conforme a fotografia, o ambiente e o estado psicológico de Roy também mudam. Tudo isso dá ao longa um aspecto de múltiplas facetas, enriquecendo a história e fazendo o filme funcionar muito bem no que se propõe, seja com ação frenética, seja com relações interpessoais. É uma experiência cinematográfica impressionantes!
OUTROS MÉRITOS DO FILME

Outro ponto bastante agradável dentro de Ad Astra foram as atuações, principalmente a de Brad Pitt. Neste papel, o ator estava bem longe de sua zona de conforto e tinha um desafio em mãos. Mesmo com um roteiro apressado, Brad teve a sensatez de vestir bem as expressões e emoções que seu personagem pedia. Brad entregou a progressão correta do Roy calmo e sensato para o Roy paranóico e em crise existencial. Some isso a atuação discreta mas bem encaixada de Tommy Lee Jones e temos uma dinâmica interessante entre um filho traumatizado e magoado e um pai desconfiado e alucinado. Dois caras gigantes entregando as atuações que tal enredo pedia.
Ad Astra – Rumo às Estrelas é um ótimo filme e muito interessante, mas os deslizes acabam enfraquecendo a história. Apesar de tudo, é um filme que agrada bastante para quem curte uma boa ficção científica, com um drama bem aplicado e um espetáculo visual estonteante. É uma trama que tenta discutir o papel do homem no universo e como o homem lidaria com tais respostas. Um filme de discussões importantes e, ainda assim, de uma sensibilidade necessária para o tema. Entretanto, com tanta complexidade compactada e pouca substância de roteiro, Ad Astra acaba perdendo a chance de ser memorável e aclamado dentro do seu gênero.
Não tenho certeza do futuro, mas não estou preocupado. Vou confiar nas pessoas mais próximas de mim e compartilhar seus problemas, como elas compartilham os meus. Vou viver e amar.
Roy McBride, Ad Astra – Rumo às Estrelas
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