Mais um remake chega aos cinemas. Trata-se de Amor, Sublime Amor, dirigido por Steven Spielberg e baseado no clássico musical West Side Story de 1961 e no musical homônimo da Broadway de 1957. Embora Spielberg dispense apresentações, qualquer oportunidade de enaltecer a carreira e o talento de um dos maiores diretores de Hollywood é sempre bem-vinda.

Dono de uma versatilidade inquestionável, Steven Spielberg circula entre vários gêneros com maestria. Afinal, está por detrás de suspenses como ‘Tubarão‘; sci-fi, como ‘Contatos Imediatos de Terceiro Grau’ (ambos na primeira década de sua carreira, ainda nos anos 70); passando pelo drama histórico em ‘A Lista de Schindler‘ e pelo clássico filme de guerra com ‘O Resgate do Soldado Ryan’, desaguando, por fim, em ‘Ponte dos Espiões‘ e ‘The Post – A Guerra Secreta‘.
Apesar de um currículo tão vasto, Ainda há espaço para novos desafios. E com Amor, Sublime Amor, Steven Spielberg surpreende com um remake. E de um musical, ainda por cima. Assim, o público tem o privilégio de ser mais uma vez capturado pelo talento do veterano diretor.
Sobre a Nova York dos anos 50
O musical conta a história de gangues rivais que se digladiam na Nova York dos anos 50. Apesar de ser bem mais inclusiva e progressista do que os estados do sul, a cidade faz parte de um país assolado pelo apartheid e mergulhado em preconceitos de todas as espécies. Nesse contexto, somos apresentados aos Jets e, em seguida, aos Sharks. A saber, a primeira gangue é formada por estadunidenses nativos, enquanto o segundo grupo é composto por imigrantes latino-americanos, mais especificamente porto-riquenhos.

A história é permeada por muitas mazelas das quais a sociedade luta para se livrar, tais quais, a xenofobia, a desigualdade, o racismo, o machismo, a homofobia e, consequentemente, a violência. De fato, o principal entre esses temas é a xenofobia, fator diferenciador entre os Sharks e os Jets. Mas os demais assuntos também surgem ao decorrer de Amor, Sublime Amor.
Jets x Sharks
Em uma conversa de Riff (Mike Faist), líder dos Jets com o xerife da cidade, este deixa bem claro que o chefe da gangue é “um americano que deu errado”. Em uma clara alusão à meritocracia, o policial não critica exatamente a xenofobia ou a violência praticada pelos Jets, mas o fato de um nativo-americano ter que disputar território com porto-riquenhos. Até porque o avanço do progresso não poupará ninguém que more ali. Riff, como homem branco, deveria estar numa posição status social elevado, que possibilitasse tratar os imigrantes como subalternos, não como rivais. Na realidade, enquanto os Jets temiam uma suposta ameaça ao lado deles, o perigo real vinha de cima.

Perceptivelmente, no caso da briga entre Jets e Sharks existe algo de infantil até. Como ilustração disso, uma arma de verdade vira brinquedo nas mãos de uma das gangues. Eles, inclusive, chegam ao ponto de marcar um confronto final sem se importar com as consequências disso. Ambos são resultados de um contexto e violência e desigualdade. Assim, os Jets compensam o fato de serem oprimidos se tornando opressores. Entretanto, é importante deixar claro que Amor, Sublime Amor não justifica a xenofobia e o ódio gratuito. Apenas traz uma reflexão sobre o ciclo e violência e sobre oprimidos lutando entre si.
Um amor em meio ao caos

Justamente nesse cenário hostil, surge um romance proibido bem ao estilo Romeu e Julieta. Afinal, Tony, ex-líder dos Jets e Maria, irmã de Bernardo (David Alvarez), líder dos Sharks se apaixonam. A saber, a mocinha é interpretada por Rachel Zegler, tão bem adaptada ao papel que não parecia ser uma atriz estreante. Enquanto Tony, por sua vez, ganhou vida na interpretação de Ansel Elgort. O casal assume o protagonismo da história que, inclusive, de West Side Story, virou Amor, Sublime Amor na versão brasileira.
O casal tem carisma suficiente para tocar a trama e constrói uma boa química em cena. Mas Ansel, certamente, já teve desempenhos melhores em outras tramas, ainda assim tem seus momentos de brilho, especialmente cantando.
Fotografia

Sem dúvidas, Amor, Sublime Amor se destaca por ser visualmente belíssimo. A começar pela ambientação na Nova Iorque dos anos 50 que traz aquele clima retrô bem atrativo. Longe do glamour dos arranha-céus, no lado periférico da cidade, a beleza vem das singelezas, como a poça d’água refletindo a luz. As jogadas de câmera, certamente, ajudam bastante nesse processo e não é pra menos numa direção de Steven Spielberg.
Mas a beleza vai além dos cenários, cada detalhe traz uma nova informação para prender a atenção do públicos. Os figurinos, por exemplo, são essenciais. Eles transmitem com clareza a ingenuidade de Maria e a sensualidade de Anita. Mas também funcionam bem nos planos abertos para diferenciar os porto-riquenhos dos americanos. Enquanto os sharks vestem uma tabela de cores mais quentes e terrosas, os jets ficam com os tons mais frios e opacos.

E, por falar em coreografia, de fato, West Side Story dá um show. Afinal, os passos perfeitamente sincronizados somados ao carisma do elenco e à exuberância dos cenários criam um verdadeiro espetáculo visual.
Antes de tudo, um musical
`Por ser um musical, a trilha sonora de Amor, Sublime Amor tem uma importância enorme.
A canção “América” é interpretada pela personagem que talvez mais se destaque no filme. A apresentação musical se traduz em um espetáculo dançante, colorido e divertido que ao mesmo tempo traz uma reflexão tão profunda que se transforma em uma pergunta bem difícil de ser respondida. É melhor está em um país com mais possibilidades em que você será tratado como um nada ou em um país assolado por crises, mas entre seus iguais? Anita, que ganha vida com Ariana DeBose, é segura, empoderada e dona do próprio destino. E a promissora atriz brilhou bastante, dando a medida exta à personagem.
Embora “América” seja de longe a canção mais icônica, cada música cantada tem seu valor na trama. A romântica “Tonight” é essencial no desenvolvimento da química entre o casal Tony e Maria. Já, o espetáculo da cadeia traz um pouco do ponto de vista e da história dos Jets. Entretanto, se as canções são sempre executadas da melhor forma e no melhor momentos, as músicas de fundo às vezes parecem um pouco desconectadas do que acontece em cena, até quebrando a emoção em algumas delas.
Por fim, West Side Story é um clássico que envelheceu muito bem. Ainda assim, as adaptações feitas por Steven Spielber na nova versão foram incríveis e resultaram num espetáculo. Embora, o roteiro tenha uns pequenos problemas que, se comentados virariam um spoiler, o longa vale muito à pena e o Kolmeia chutaria que a indicação de Spielber ao Oscar vem.