O quanto conhecemos sobre a história dos negros
No final de 2019, fomos surpreendidos pela série da Watchmen produzida pela HBO. As expectativas estavam altas graças aos trailers de divulgação e por eu ser fã declarado da DC comics. Porém, ninguém estava preparado pelo que estava por vir, uma vez que a série já começa pelo massacre da cidade de Tulsa – Oklahoma/EUA.
Confesso que nunca soube da história, tampouco que Tulsa era conhecida como a Wall Street Negra. Segundo o podcast oficial de Watchmen, o próprio diretor (Damon Lindelof) revelou só ter descoberto ao fazer pesquisas para a série. A partir dessa curiosidade, acendeu uma pergunta: o quanto de fato sabemos sobre a história negra no Brasil?
Infelizmente, mesmo hoje, dentre os cerca de 54% da população, boa parte não possuem as ferramentas necessárias tanto para conhecer a sua própria história, tampouco para contar a sua própria. Sem contar que, muito da história dos negros estão fragmentadas ao longo de outras. Logo, esse texto irá escolher um determinado período: a abolição.
Adiantamos que a função desta postagem será gerar a mesma curiosidade que o primeiro episódio de Watchmen provocou, e se pelo menos uma pessoa que ler de fato for pesquisar sobre 13 de maio, já estaremos gratos.
O que estava acontecendo antes da Princesa Isabel assinar a lei áurea?
Aposto que na escola você deve ter ouvido a seguinte narrativa:
“No dia 13 de maio, a princesa Isabel assinou a lei áurea, pondo fim a escravidão dos negros”
Durante muito tempo, boa parte da população decorou essa frase tal como os versos do hino nacional. Na verdade até houve algumas adaptações para TV colocando-a como redentora e tudo mais. No entanto, a história do 13 de maio de 1888 não foi bem assim.
Assim como em Watchmen, a história foi bem sangrenta e com vários episódios
Não tivemos a cidade de Tulsa, mas nossa história contou com massacres e tramas. Dessa forma, tome aqui a sua pílula de Nostalgia produzidas pelas Indústrias Trieu e vamos voltar para 1864. Para prepará-lo melhor, assim como nos flashbacks da série da HBO, vamos deixar uma pergunta: Já perceberam que os negros raramente aparecem como protagonista nos atos históricos no Brasil?
Então, é sempre bom relembrar o óbvio, ou seja, isso ocorreu graças a dois fatores. O primeiro deles foi que para a sociedade escravocrata de 1864, os negros eram apenas propriedade e não pessoas, muito menos pensantes. O segundo fator, também muito importante, era que o ensino de qualidade estava disponível apenas para as classes dominantes.
Portanto, ainda que você fosse branco, se não fosse da classe dominante, muito provavelmente você seria analfabeto e corria o risco de não ser tratado como “Branco”. Logo, os protagonistas e figuras de destaques eram sempre escolhidas e devidamente retratadas pela elite da época. Mas para o subtítulo desse bloco faça sentido, vamos falar de um evento em específico, A Guerra do Paraguai.

Esse foi outro exemplo de como passamos batidos por eventos chaves da nossa história. Afinal, quantas vezes você ouviu a mentira de que o Brasil sempre foi pacífico? Pois bem, para se ter uma ideia, guardadas as devidas proporções, a Guerra do Paraguai foi um dos maiores conflitos armados do continente Sul-americano e um dos mais violentos. Inclusive, vale muito a pena assistir ao documentário Guerras do Brasil.doc ( Youtube/Netflix) e claro uma conversa com algum pesquisador de história da sua cidade.
Qual a importância da guerra do Paraguai para a abolição dia 13 de maio de 1888?
A Guerra do Paraguai foi o catalisador de algo que já estava em curso. Pois, durante o século XIX o número de fuga de escravos, formação de quilombos e até mesmo insatisfação popular em relação a escravidão só aumentava. Porém, sempre que algum evento tomava grandes proporções, a Guarda Nacional reprimia. No entanto, de acordo com a edição 136 da revista História Viva e Guerras do Brasil.doc graças a guerra, os fatos aconteceram da seguinte forma:
- Brasil decidiu entrar na guerra ao lado da Argentina e Uruguai, porém, mesmo sendo um país gigantesco, ainda não tinha um exército formado.
- Suas defesas eram feitas pela Guarda Nacional que não poderia cruzar a fronteira.
- A princípio eles contaram com o apoio dos voluntários da pátria, mas rapidamente passaram a alforriar negros para enviá-los à guerra.
- Negros recém libertos lutaram ao lado daqueles que antes os perseguiam. Além disso, o conflito que duraria apenas alguns meses, durou 6 anos.
- Ao retornar ao Brasil, os negros livres manuseavam armas, sabiam que o Brasil era a último país a apoiar a escravidão e graças a guerra, o exército agora se recusava a perseguir negros.
Ainda que o Brasil fosse o último país escravocrata em 1870, ao término da Guerra do Paraguai, a elite da época estava longe de pensar em abolir a escravidão. Como se não bastasse, parte dela ainda queria re-escravizar os negros que retornaram. Com isso, restavam 18 anos até o dia 13 de maio de 1888 que seriam longe de serem pacíficos ou sem articulações. Vamos dar uma pausa, segundo recomendações das indústrias Trieu as doses de Nostalgia são muito fortes.
O que esperar da parte 2?
A cada episódio de Watchmen, vemos a personagem Angela Abar (Regina King) combatendo o crime em Tulsa, principalmente a 7° Cavalaria ( grupo de supremacistas brancos) tanto fisicamente, quanto com o conhecimento adquirido sobre o passado. adivinhem só? Os ex-combatentes na Guerra do Paraguai possivelmente fizeram algo similar. Não perca a conclusão dessa história, onde veremos a conquista da abolição pelos negros. Além disso, teremos a participação especial dos Minutemen e o Rei da Noite de Game of Thrones. Não perca! Como Watchmen ajuda a entender o fim da escravidão no Brasil – Parte 2 #KolanoKolmeia.