As vezes a ficção é bem similar a realidade
Antes de começar, avisamos que esse artigo contem spoilers já na introdução, tudo bem? Na série Watchmen da HBO, existe um herói chamado Justiça Encapuzada (Hooded Justice), cujo traje era um capuz preto e laço de corda ao redor do pescoço. Assim, ele foi o primeiro vigilante mascarado e a principal influência dos Minutemen, grupo de heróis fantasiados, no qual ele foi um dos fundadores. Ainda assim, o Justiça Encapuzada nem de longe ele tinha o protagonismo e antes que esse artigo acabe vocês entenderão o porquê. Agora, voltaremos ao assunto sobre o fim da escravidão no Brasil desenvolvido na parte 1. Prontos para mais uma pílula de Nostalgia?

A conquista da abolição
Na edição 179 da revista Aventuras na História, publicada em abril de 2018, há uma matéria que somente um palavrão pode descrever. Assim, o artigo, com o mesmo título desse bloco, relata algo interessante: Os negros lutaram pela abolição! Inclusive de forma organizada.
Para se ter uma ideia, na edição citada há um relato em especial da formação de uma vasta rede de colaboração, incluindo caixeiros-viajantes e funcionários da rede ferroviária no estado de São Paulo. Dessa forma, podiam ajudar escravos a fugirem através dos vagões e seguirem para quilombos como o de Jabaquara.
Em outra citação, escravos alfabetizados liam as notícias para os demais se informarem. Fora o aumento do número de negros que se rebelaram por conta própria. Vale lembrar que nesse momento, o exército se recusava a persegui-los.
Outro ponto importante foi que tanto os EUA, quanto Cuba já tinham abolido a escravidão. Com isso, o Brasil tinha se tornado o último país no ocidente a manter o regime. Dessa maneira, uma parcela maior da sociedade estava insatisfeita com a escravidão. Por isso, em 1880, dez anos após o término da Guerra do Paraguai, a abolição estava nas ruas, na arte, nas manifestações.
Era o início de um movimento civil organizado, muito provavelmente com a contribuição daqueles ex-combatentes da guerra do Paraguai e muitos outros cansados da opressão. Além de figuras como Luís Gama, José do Patrocínio e André Rebouças, todos abolicionistas negros e com grande influencia na imprensa e no meio político.

Afinal, o que Princesa Isabel fez de fato?
Graças aos abolicionistas que ganhavam cada vez mais adeptos, finalmente chegamos a Princesa Isabel. Segundo Danilo Nunes, mestre em História pela UFRJ e professor de História da SME-Rio, ela sofreu pressão dos abolicionistas, deputados e da Inglaterra. Inclusive, de acordo com o artigo O Lado B da Princesa Isabel publicado na revista IstoÉ, a filha de Dom Pedro II estava bem longe da figura de redentora dos escravos. Diante disso, a assinatura da Lei Áurea possivelmente foi um ato ocorrido muito mais por pressões do que de fato por vontade própria. Ainda que tinha acontecido foi uma vitória para o povo negro naquele momento, outra luta estava começando.
Contudo, há os que defendam que a participação da Princesa Isabel refletia uma inclinação mais abolicionista. No episódio 45 do Podcast História no Cast, existe um interessante debate em relação a participação da filha de Dom Pedro II no processo da abolição. Embora eles não a coloquem na figura de redentora, mostram bons argumentos sobre a contribuição dela que inclusive lhe custou o trono.
A Injustiça histórica liga o enredo da série a nossa história
Portanto, atribuí-la toda glória do primeiro movimento popular, onde diversos líderes negros contribuíram até com a própria vida é algo tão escandaloso quanto o que aconteceu ao herói Justiça Encapuzada.

Como prometemos na introdução, explicaremos o porquê do herói não ser o protagonista dos Minutemen. O Justiça Encapuzada era um policial negro que caçava supremacistas brancos protegidos por um sistema policial corrupto que acobertava seus crimes. Dessa forma, seus trajes serviam para que ele cumprisse seu trabalho sem retaliações. Logo, na série Watchmen da HBO, toda mitologia dos super-heróis, desde os Minutemen até os Watchmen, foi originada a partir um homem negro, cuja história original foi completamente ignorada. Pois, graças a sociedade ao racismo da década de 40, ainda que você um herói, você precisava ser branco.
Efeitos do apagamento da história
Encerro esse texto com uma observação feita pela também redatora do Kolmeia Carla Benevenuto. Na última temporada de Game of Thrones, a criatura mitológica conhecida como o Rei da Noite, tentou a todo custo eliminar o Bran que naquele momento possuía as lembranças de todos os habitantes de Westeros. Se não fosse Arya Stark, Bran teria morrido e assim toda a história existente dos 7 reinos. Com isso, todos estariam condenados eternamente a longa noite.
Logo, o que une Watchmen, Game of Thrones e o fim da escravidão no Brasil é a história. Afinal, sem as pílulas de nostalgia em Watchmen, Angela aBar não saberia com enfrentar os vilões, tampouco que era descendente do herói Justiça Encapuzada que sobreviveu ao massacre de Tulsa. Da mesma forma, sem as lembranças de Bran, não existiria mais Westeros. Portanto, a escravidão, assim como outras injustiças no Brasil, só caminhará para o fim, quando todos souberem o que de fato aconteceu.
Por conta de razões históricas, a parte 3 (final desse arco) só irá estará disponível no dia 15 de Novembro. Até lá, continuem pesquisando sobre a história e assistam Watchmen no HBO.GO. Fiquem em casa conectados ao Kolmeia.