Quando o filme de “Los Javis”, Javier Calvo e Javier Ambrossi, toma conta da tela, parece que você volta quase 30 anos atrás, e captura um pequeno momento de “A Vida é Bela”, de Roberto Benigni. O filme italiano venceu 3 prêmios Óscar, e foi um fenômeno no mundo, inclusive batendo o aclamado “Central do Brasil”, de Walter Salles. Mas “A Bola Preta” é muito mais sugestivo e até sufocante para algumas pessoas, a partir daí. As cenas que se seguem, na sessão de estreia do filme, no Cine Oden, no Festival do Rio 2026, são vicerais e conduzidas com maestria pelo casal que criou e dirigiu as três histórias que, entrelaçadas, permeiam o filme.

Elenco está completamente envolto às tramas
Falar da entrega técnica de absolutamente todos os campos de “A Bola Preta” (“La Bola Negra”, no original), é repetir mais do mesmo. Baseado em algumas obras de Federico García Lorca, o filme é expansivo e seguro, ao decidir falar de tramas gays em três épocas distintas.

O filme de “Los Javis”, se passa em 1932, onde acompanhamos Carlos (Milo Quifes), lidando com a oportunidade de entrar para um espécie de seita, e de se provar heterossexual, limpando assim o nome da família, passa pela Guerra Civil espanhola de 1937, com a dobradinha de mais química do filme, entre Guitarricadelafuente, como Sebastián, e Miguel Bernardeau, como Rafael, e chega à 2017, com a trama de Alberto, conduzida por Carlos González.
Atores envoltos na poesia de Lorca, e completamente vidrados em entregar o que cada personagem precisa para viver em épocas distintas com a mesma falta de aceitação. Ora de si próprios, ora da própria sociedade que encarcera, julga e condena à sua maneira.
Histórias transitam entre o lúdico e o realismo moderno
Da eclosão da Guerra, até às vivências cruéis de todo período em confronto, até a casualiddade dos relacionamentos modernos, descartáveis e líquidos, que até mesmo Zygmunt Baumam já citou, “A Bola Preta” nos deixa pensativos sobre até que ponto nos certificamos de que nos cercearmos para sermos

bem aceitos pela sociedade, que é a trama artística, lúdica e inventiva do personagem Carlos, que tenta se encaixar, mas se afoga em bedidas enquanto tenta viver o amor com figuras que alegoricamente, são a síntese do seu desejo (um dos melhores amigos, um michê…).
Carlos tem uma resposta, que vem diretamente da poesia de Lorca, quando chega a um ponto onde a Guerra o atravessou, e em uma espécie de “outro plano”, ele consegue descansar, mesmo que ao custo de enterrar o seu amor, seus desejos e aspirações, em uma representação lúdica de como as pessoas podem acabar, quando decidem não assumirem e aceitar quem são. Mas aceitar, em 1931, não era o suficiente. Era uma sentença ainda mais rápida de descaso e abandono.
Leia também: Festival do Rio 2026 | Abertura tem exibição de filme premiado em Cannes
Romance entre dois militares é tratado de forma profunda
A ligação entre Sebastián e Rafael consegue ser ainda mais profunda e decisiva para o filme. Ambos os personagens tem ligações com figuras centrais da narrativa, como o próprio Lorca, e com Alberto. A trajetória introvertida de Sebastián, de descoberta e de um olhar mais sensível longe dos julgamentos, é atravessada por Rafael, um prisioneiro de guerra, mas que aos poucos se mostra um mensageiro da plenitude de um Sebastián, que nos entrega os melhores trechos, de melhores fotografias e silêncios de “A Bola Preta”.

Guitarricadelafuente liberta seu Sebatián durante o longa, nos fazendo entender que muitas vezes, não tem a ver só com a sociedade, a cultura e as objeções… E sim, com seu próprio eu. Navegar em si, e entender que o desejo não se prende à águas rasas, e que naufraga, se você não atende o chamado do mar. A última cena do filme, é um deleite com a prova de que “Los Javis” produziram umas das maiores obras cinematográficas do ano.
Carlos González trata conflitos e sexualidade exatamente como são no Séc. XXI
Em 2017, Alberto é um dramaturgo que recebe uma herança por parte do avô materno. De uma relação difícil com mãe e tensa com seu companheiro, a busca pela casualidade, por se saciar sexualmente, não preenche o personagem nem um terço do que faz a herança deixada pelo avô. Avô esse, que é Sebastián, e deixa em posse de seu neto, a até então, não terminada “A Bola Preta”, que dá título ao filme, montagem teatral escrita e perdida de Lorca. Acertando em traumas, silêncios e inseguranças, Alberto reconstróis suas relações e até mesmo a sua auto estima, com base nas coisas mais valiosas que o avô o deixou: Significado e aceitação.

“A Bola Preta” é um aula de roteiro, direção e discurso
Completamente diferente do que se desenha, propondo um discurso ousado e necessário, “A Bola Preta” foi aplaudido de pé, na estreia, no Festival do Rio, no Cine Odeon, na última quinta-feira, 01 de Outubro. Com louvor, o filme conduz histórias independentes, que se entrelançam primeiro pelo tema, e depois pelo diáologo sensível, pela simbiose de personagens distintos, mas ligados pelo desejo de ser em voz alta, o que verdadeiramente são!
Nota: 9/10








