“Renascer” termina sua trajetória, na Rede Globo, amanhã, 06, como um grande sucesso comercial, mas não tão popular quanto o esperado. A trama do horário nobre da Globo, foi adaptada da obra de Benedito Ruy Barbosa, pelo seu neto, o também autor, Bruno Luperi. Em uma época em que os remakes surgem como refúgio e cortina à fuga da originalidade, os autores remodelam histórias já contadas. E apesar dos pesares, que falta fará a trama protagonizada por Marcos Palmeira.
Quando a Rede Globo decidiu fazer um Remake, e não uma adaptação diferente, de “Pantanal”, sucesso da teledramaturgia com Cristiana Oliveira, na Rede Manchete, em 91, todos ficaram com um pé atrás. Outros, até com os dois. Eu, sempre um amante das novelas rurais, fiquei animado, mas nem nos meus melhores e maiores sonhos achei que o meu coração seria tão explorado quanto foi pela história de Benedito Ruy Barbosa. Dirigida por Rogério Gomes, o Papinha, e depois pelo atual diretor geral de “Renascer”, Gustavo Fernandez, a trama era misteriosa (pelas figuras de Maria Marruá, de Juma, do Velho do Rio), e encantava pelas sequências em uma fotografia poética do pantanal brasileiro.

Remakes nem sempre são sinônimos de sucesso
“Pantanal” foi um sucesso, em 2022. Teve média geral de 29,6 (30) pontos no ibope. Para os padrões, grande sucesso! Eu cheguei a escrever um texto em uma rede social, de como ser “filho do amor” tinha me marcado, em uma cena irretocável interpretada por um Jose Loreto no melhor papel da sua carreira. O Brasil inteiro parou para ver. Era um produto inédito na Globo, ainda que sendo um remake, e as pessoas queriam entender se a Vênus platinada ia manter tudo como foi, ou se escreveria uma nova história.
A Globo provou porque é a Globo. Fez mudanças pontuais, adequando a história ao seu exigente público e a novela foi um sucesso. Mas o que explica um produto como “Pantanal” ter sido um sucesso, gerando um remake tão impopular como “Renascer”? Em uma época tão moderna, elétrica, imediata, as tramas precisam ser contemporâneas e conversar com o seu “novo espaço” de forma cada vez mais homogênea: A Internet.

Que refresco então ter Benedito Ruy Barbosa. E não só ele, como Edmara Barbosa, Edilene Barbosa, e claro, Bruno Luperi. Em comum, ambos tem a facilidade de escrever tramas rurais. Claro, que nem tudo sempre deu certo. “Meu Pedacinho de Chão” e sua nova roupagem, passou longe da original de 1971, e foi massacrada pela crítica, mais uma vez por conta de sua popularidade, não por conta da sua estética. Luiz Fernando Carvalho, figurinha repetida nas produções de Ruy Barbosa, principalmente pelo cuidado com a estética dos melodramas, foi o responsável pelo remake, em 2014. Mas ninguém está livre disso. Quem lembra de “Esperança”, novela inédita de Benedito Ruy Barbosa que foi uma verdadeira dor de cabeça para Globo, em 2002?
As histórias de Benedito tem essência e verossimilhança
A quebra de linearidade da sequência de tramas contemporâneas dá um refresco imenso ao público e mexe com a crítica de alguma forma. Mesmo não sendo um sucesso tão estrondoso quanto “Pantanal”, “Renascer” tem muitos pontos positivos. As tramas rurais falam de um Brasil que fica esquecido na modernidade e necessidade do conteúdo digital. Apesar da teledramaturgia hoje, rejeitar alguns temas que já foram sucesso na sua história, como o próprio “realismo fantástico” popularizado por Aguinaldo Silva (“Pedra Sobre Pedra”, “A Indomada”), ela tem suas exceções.
E Bruno Luperi tem sido maestro nesse sentido.
Apesar de na verdade, adaptar as obras de sucesso do avô, Benedito Ruy Barbosa, Bruno consegue manter a essência das tramas, e atualizar dentro do possível algumas questões, inclusive deletando outras ultrapassadas, não porque Benedito era um machista preconceituoso em seus textos, mas porque ele contava histórias próximo da realidade de um brasil “oitentista” ou “noventista”, mas que não cabem mais. Ou melhor, que cabe a adequação, tendo em vista valores morais e sociais dos dias de hoje.

Todas as novelas de Benedito na década de 90, desde a sua volta para Globo, em 93, estancaram quedas de audiência de suas novelas anteriores e foram sucesso em épocas distintas. “Renascer”, a trama original, fechou com mais de 60 pontos de ibope, assim como “Terra Nostra” teve pouco mais de 44 pontos, e ambos foram sucessos estrondosos, com a primeira elevando o ibope em 8 pontos e a segunda, em 6 pontos, das tramas anteriores. A teledramaturgia nas mãos de Ruy Barbosa sempre causou impacto.
Isso só mostra como o público demorou a se desvincular de tramas do interior, que acabavam levando Brasil afora um pouco de características de pessoas, cidades e comunidades ribeirinhas, interioranas, com trejeitos e dialetos que por vezes fisgaram a atenção da plateia. A teledramaturgia é a paixão do brasileiro. Assistir Benedito às 18h ou às 20h, era o programa predileto das famílias, seja por conta da mulher que virava onça, do diabinho na garrafa ou do MST. E olha que as tramas nem sempre eram leves. Carregadas de espiritualidade e violência, as histórias prendiam a atenção, graças a um dos truques que ele foi mestre em utilizar: o gancho.
“Renascer” é exemplo de qualidade técnica e textual
Já o remake “Renascer” pode revelar uma falsa ideia de saturação do público para as tramas e histórias de Benedito, e agora, de Luperi, mas manter a essência de uma história de tanto sucesso na década de 90, pode não agradar uma plateia mais exigente, imediatista, globalizada, informatizada, e sedenta por ação e tramas misteriosas. As séries americanas criaram uma geração de noveleiros que querem mesmo tramas policiais. O pecado de “Renascer”, incentivado pela Globo, talvez tenha sido a realização de forma tão próxima a “Pantanal”, o que ajuda a criar essa ideia, já que o protagonista de ambas histórias é vivido pelo mesmo ator.

Luperi suavizou a trama em diversos pontos, modernizou, quando o assunto se tratava do plantio e exploração do Cacau, e tornou o José Inocêncio de Marcos Palmeira, um personagem muito mais humano e responsável com questões ambientais. Detalhes que enriquecem a adequação do texto ao público mais atento. E demonstra a preocupação ficcional da teledramaturgia com um assunto que o Ser Humano não tem se alertado para a necessidade de falar sobre: A preservação do bem natural.
A nova roupagem da trama de Benedito, dará lugar a “Mania de Você”, de João Emanuel Carneiro, e termina com uma excelência de produção completamente única. Trama, elenco, produção e resposta do mercado atenderam e superaram as expectativas. Mas um adendo tem feito algumas mídias jornalísticas chiar: a audiência. “Renascer” vai ter sua exibição com 26 pontos de média geral. O mesmo número da bagunçada “Terra & Paixão”, e apenas dois pontos a frente do fracasso (também aos olhos de alguns jornalistas) “Travessia”, de Glória Perez.

Audiência não tem mais a ver só com o ibope
Mas não dá pra comparar o sucesso de ambos os remakes, hoje em dia só pela audiência. Quando a Globo se tornou pioneira na teledramaturgia brasileira que conhecemos hoje, por que antes dela, tanto a TV Tupi quanto a TV Excelsior e a Record, eram principais realizadoras da TV Brasileira, a audiência era sinônimo de popularidade. Mas com a modernização das tecnologias, não é possível mais se medir sucesso apenas através dos números.
Além de Marcos Palmeira (José Inocêncio), excelentes atuações de Edvana Carvalho (Inácia), Juan Paiva (João Pedro), Camila Morgado (Dona Patroa), Irandhir Santos (Tião Galinha), Vladimir Britchta (Coronel Egídio) e o mais do que consagrado Matheus Nachtergaele (Norberto) prenderam a atenção do público à história dos Inocêncio. Xamã (Damião) e Theresa Fonseca (Mariana) foram outros destaques da trama, ainda mais pelo trauma da rejeição da personagem de Theresa, vivido por Adriana Esteves, na primeira versão da novela. E ela segurou bem e deu originalidade a sua Mariana.
Entre outros fatores, a primeira fase da trama encabeçada por Humberto Carrão, Duda Santos e Belize Pombal é elogiada ate hoje. Essa é uma outra coisa que Benedito soube sempre fazer muito bem. O início de suas novelas. Verdadeira obras cinematográficas. Algumas até vendidas separadamente do produto original tamanha qualidade de produção, como é o caso da primeira fase de “O Rei do Gado”, de 96, com Leonardo Brício, Letícia Spiller, Antônio Fagundes e Tarcísio Meira.
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O futuro do legado dos Barbosa
Bruno Luperi tenta há anos emplacar uma novela inédita: “O Arroz de Palma”. A trama que conta sobre a imigração luso-brasileira no século XX prometia, mas por conta da pandemia, criada pelo Covid-19, acabou adiada e deu lugar aos remakes que se seguiram. Mas seria interessante o ver escrever uma trama inédita, já que adaptou tão bem as histórias do avô, Benedito Ruy Barbosa.
Agora é esperar por uma próxima história rural, de preferência da família Barbosa, e que em qualquer horário, nos conecte com algo que não seja só uma rede social, mas algo mais profundo e que nos faça questionar outros temas, alguns dos quais fugimos, outros dos quais não vimos ou não sabemos… Ou quem sabe, apenas adicionar motivação para pensarmos com mais carinho em cada parte do nosso país!

Cuidem das nossas matas, não queimem! Até a próxima!