Após quatro anos de silêncio desde Whole Lotta Red, Playboi Carti retorna com MUSIC, um álbum que expande os limites do rap contemporâneo. Com 30 faixas e uma duração de 77 minutos, o projeto é ambicioso e repleto de experimentações, consolidando Carti como um dos artistas mais inovadores e enigmáticos do hip-hop atual.
Uma Jornada Sonora Experimental
Se há algo que define MUSIC, é sua falta de coesão tradicional. Em vez de seguir uma estrutura linear, o álbum funciona como um mosaico de estilos, referências e texturas sonoras que Carti domina com maestria. A produção é diversificada, trazendo influências que vão do trap caótico ao eletrônico melódico, passando por momentos de pura abstração. Em algumas faixas, a sensação é de um fluxo de consciência, como se Carti estivesse improvisando dentro de um universo sonoro instável, mas cativante.
Essa abordagem pode ser desconcertante para ouvintes que esperam uma narrativa mais tradicional, mas é justamente essa ousadia que faz de MUSIC um álbum tão intrigante. A ausência de um fio condutor claro não significa falta de propósito – pelo contrário, é uma escolha deliberada que reforça a estética desordenada e imprevisível de Carti.
A Voz como Instrumento
Playboi Carti sempre usou sua voz como um instrumento dinâmico, e em MUSIC ele leva isso a um novo patamar. Seu espectro vocal é vasto: em “K-Pop”, ele utiliza um tom profundo e rouco, similar ao de sua participação em “Fe!n” de Travis Scott; já em “Radar”, sua voz assume um tom reptiliano e agudo, criando um efeito quase alienígena.
Ele também homenageia influências claras, como Future, ao adotar um timbre similar no refrão de “Toxic”. Mas, longe de soar como uma simples cópia, Carti incorpora esses elementos ao seu próprio estilo, moldando sua identidade vocal de forma única. É essa capacidade de metamorfose que o mantém sempre à frente no cenário do rap experimental.
Produção: Caos Organizado
MUSIC se destaca por sua produção arrojada. Faixas como “Pop Out” remetem à energia explosiva de Whole Lotta Red, com batidas vibrantes e distorcidas que parecem pulsar como um organismo vivo. “Backd00r”, co-produzida por Kanye West e Ojivolta, traz uma abordagem mais suave e envolvente, contrastando com a agressividade de outras músicas do álbum.
Outro destaque é “Rather Lie”, colaboração com The Weeknd, que se destaca pelo clima etéreo e celestial. Já “HBA” e “Overly” apostam em sintetizadores orquestrais que adicionam um toque cinematográfico ao projeto. Essa variedade de estilos mostra que MUSIC não se prende a um único conceito, preferindo explorar diferentes abordagens dentro de uma estética caótica.
Colaborações de Peso
As participações especiais enriquecem ainda mais a diversidade sonora do álbum. Kendrick Lamar surge em três faixas, incluindo “Mojo Dojo”, onde suas interações com Carti criam um jogo dinâmico de versos e ad-libs. Lil Uzi Vert aparece em “Jumpin” e “Twin Trim”, esta última sendo uma faixa de 90 segundos onde Carti sequer participa, mas que mantém a coesão do álbum.
Apesar das parcerias de alto nível, MUSIC permanece inconfundivelmente um projeto de Carti. Ele não se deixa ofuscar pelos convidados e, em vez disso, usa essas colaborações para ampliar ainda mais sua paleta sonora.
Um Álbum Para Ser Sentido, Não Entendido
Letras nunca foram o foco principal de Playboi Carti, e MUSIC reafirma isso. Suas rimas são fragmentadas, repetitivas e muitas vezes ininteligíveis – um traço que, longe de ser um defeito, faz parte da estética abstrata do artista. O álbum não busca contar histórias, mas sim criar sensações.
Por vezes, as letras soam como mantras hipnóticos, reforçando a natureza quase ritualística da experiência de ouvir Carti. “Evil J0rdan”, por exemplo, contém frases simples e aparentemente sem sentido, mas que, dentro do contexto sonoro do álbum, adquirem um peso próprio.
Desde seu lançamento, MUSIC tem sido um fenômeno. O álbum quebrou recordes de streaming, tornando-se a sétima melhor estreia na história do Spotify, com quase 140 milhões de reproduções em um único dia. No entanto, também gerou polêmica, com acusações de uso de Inteligência Artificial na produção de algumas faixas – algo que Carti negou.
A recepção crítica tem sido mista. Enquanto alguns elogiam a audácia e inovação do projeto, outros criticam sua falta de estrutura e coesão. Mas se há algo que MUSIC prova, é que Playboi Carti não está preocupado em agradar a todos. Seu compromisso é com a experimentação, e, nesse sentido, o álbum é um triunfo.
Conclusão
MUSIC não é um álbum convencional, e essa é sua maior força. Carti entrega uma experiência sensorial intensa, onde a música é menos sobre lógica e mais sobre emoção bruta. Com produção arrojada, performances vocais camaleônicas e uma abordagem artística radical, o rapper reafirma seu status como um dos artistas mais visionários de sua geração.
Embora sua extensão e diversidade possam ser desafiadoras para alguns ouvintes, MUSIC solidifica Playboi Carti como um dos grandes inovadores do hip-hop atual. O álbum não pede para ser entendido – ele quer ser sentido. E, nesse aspecto, Carti acerta em cheio.
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