É noite de um dia de semana comum de Junho de 1988. Uma família se senta à frente da TV, ao fim do Jornal Nacional, para ouvir Gal. À luz da redemocratização, às vésperas da Constituinte, o Brasil tem sua factualidade contada diariamente pelas interpretações de Beatriz Segall, Regina Duarte, Glória Pires, Nathália Timberg, Cássio Gabus Mendes, Lídia Brondi, entre outros excelentes atores. Ninguém perdia “Vale Tudo”. Escrita por Aguinaldo Silva, Gilberto Braga e Leonor Bassères, a novela prendia a atenção de um público ainda atordoado e aliviado, mas também revelava a faceta de um Brasil tão democrático, quanto aristocrático e soberbo.
37 anos depois…
Alguém volta para casa às pressas, caminha pela rua duas vezes mais rápido. Um vizinho espia. “Mas ele/ela acabou de passar pra lá?” Mete a chave na fechadura e entra rápido, assustando o avô, a avó, o pai, a mãe, só não assusta tanto o irmão, que hoje não foi para escola por que estava febril, mas foi só receber a confirmação de que não iria, para afundar no sofá com um celular na mão. Por falar em celular… “Esqueci o celular!”, “Meu Deus, mas não pode ficar um dia ou pelo menos algumas horas sem?”, “Não dá. Minha vida ta aqui! E eu ainda pago passagem com ele!” E a correria recomeça.

O Brasil mudou. Evoluiu. Cresceu. Mas a maioria das TVs só vive ligada por costume ultimamente. Mesmo às 21h da noite, as famílias não querem mais saber o que vai acontecer com a mocinha, com o vilão, com o núcleo que mais gosta… As novas “Ti-ti-ti”, “Te Contei”, as revistas, são aparelhos que pesam algumas gramas, que tem telas cada vez mais infinitas, e acesso ao mundo. E fora ou dentro de casa, as pessoas não querem mais saber das novidades “daquelas novelas da Globo“, que esporadicamente, também poderiam ser da Manchete, Record, ou do SBT.
O padrão de audiência na TV aberta caiu mais de 20 pontos no Ibope
A globalização da internet deu a liberdade, assinou em baixo de tudo que o brasileiro precisava para tornar o aparelho de TV, por mais moderno que seja, um mero ventilador de mesa: Ligados só por conta do barulho. Mantra inconsciente que todos sentem falta, não porque gostam do barulho, e sim porque acostumamos. E é muito difícil deixar de lado coisas que gostamos de fazer. É como escovar os dentes. Lembro que chegava da escola, resolvi as atividades, e sentava na frente da TV pra uma maratona que só terminava depois das 21h, principalmente se a trinca de novelas (das 18h, das 19h e das 20h) fossem boas. E esse era o cotidiano de boa parte da sociedade. Mas a internet chegou, e um a um, começando pelos mais jovens, foram perdendo o interesse.
Um exemplo claro, é de uma das últimas novelas do Século que mexeu com o cotidiano das pessoas, e que por obra do destino ou não, é Aguinaldo Silva: “Senhora do Destino”, icônica telenovela de 2004, que nos deu Nazaré Tedesco, e que emplacou nos seus penúltimo, último e reprise do último capítulo: 65, 61 e 42 pontos no ibope, na cidade de São Paulo. Estamos falando de uma reprise no Sábado. Hoje, 21 anos depois, as Segundas, que costumam ser o melhor dia das novelas das 21h, da TV Globo, atingem 22 pontos. Quando são sucesso? 28, 29… 30 pontos é o sonho possível dos Marinho, ultimamente.

O Brasileiro não deixou de gostar da verdadeira novela
Eu não vi “Vale Tudo” à época, não era nascido. Mas já revi em alguns momentos e entendo o fascínio das pessoas pela novela. Sou noveleiro. Ainda que esteja cada vez mais difícil encarar o que os autores tentam fazer com as novelas: Modernizar. Quem gosta, acaba arrumando um tempo, uma brecha, principalmente em uma sequência bem dirigida ou quando a personagem está dando um banho de atuação. O Folhetim ainda vende bem. Seria a perfeita solução para “Mania de Você” por exemplo, que sai do ar amanhã (28), sem deixar saudades, pois traça um dos caminhos mais difíceis que uma telenovela pode encarar. A de ser um produto de baixa audiência no principal horário de um canal.
A oferta de 1988 para a família brasileira era uma. Hoje, são muitas. Quem não acompanha a desconexa trama de João Emanuel Carneiro, pode ver “Força de Mulher”, “Beleza Fatal”, e qualquer outro produto seriado dos streamings, que são a TV da ultima década. E podem se tornar a TV definitiva do mundo, e a qualquer momento, um deles pode começar a disponibilizar um telejornal. Já pensou? “Seu telejornal já está disponível.” As próprias emissoras tem feito isso. Liberando nas redes, o que acabaram de exibir. Nos ônibus, metrôs, barcas, trens, não tem TV, então você vê na palma da sua mão. A pergunta que fica, é…
Dia 31 de Março, Gal Costa vai ressoar mais uma vez com a sua, e definitiva, “Brasil” depois do telejornal principal da TV Globo. “Vale Tudo” voltou, e será que alguma família vai se reunir na frente da TV para conferir?
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Odete Roitman está de volta, mas o público ainda está na TV?
Será que “a pobre festa que os homens armaram para nos convencer” vai dar certo? “Pantanal” deu muito certo. Por diversas outras questões, que não são as de agora. “Renascer” tinha seu público. Mas “Vale Tudo” vai além. Além de Raquel e Maria de Fátima, a “nova” novela, escrita por Manuela Dias (“Justiça”), tem Odete Roitman. Simplesmente, a Vilã das Vilãs. A origem de Lauras, Nazarés e Carminhas. Interpretada dessa vez por Débora Bloch, a TV Globo tem abusado da imagem de Odete, para tentar fisgar um publico que tem escapado entre as telas…

O grande lance de relançar “Vale Tudo”, pode estar onde não estiveram as novelas de Benedito Ruy Barbosa, adaptadas por Bruno Luperi, seu neto, recentemente. Tempo e cenário. Ambas as novelas rurais, tentaram atualizar os seus discursos, mas não podiam se afastar da atemporalidade de suas histórias. Elas eram no Brasil, mas em que Brasil? Atual? De 10 anos atrás? De 10 anos a frente? Não importava. “Vale Tudo”, não. Novela urbana que tem compromisso com seu texto original de falar do Brasil como ele é. Melhor ou pior, não sabemos. Por vezes, parecemos até no mesmo momento politico e ideológico, mas sem sombra de dúvidas, a novela de 1988 tem valor cultural essencial que não pode ser deixado de lado.
“Vale Tudo” foi um ato político de seus autores
A novela foi parte do movimento democrático que o país viveu. Talvez, só encarado de novo, através, de Ruy Barbosa, em “O Rei do Gado”, com o Movimento dos Sem Terra (MST), em 1996. “Brasil”, música de Cazuza, George Israel e Nilo Romero, virou um hino, e já na sua abertura, “Vale Tudo” pluralizava cada pedaço de um país que lutou bravamente pra se livrar de um regime militar. Hoje, nos livramos de outro tipo de governo, e quase voltamos ao de 64, mas fomos salvos por uma população que estuda, que lê e que sabe o que seus pais, avós, tios passaram. Esperamos que o compromisso da novela atual, de 2025, seja o mesmo.
“Mostra a sua cara!”
“Qual é o seu negócio?”
Adaptação vai encarar desafios maiores que em 1988
Ainda que por curiosidade, pela fama e por Odete, Maria de Fátima e Raquel, os primeiros 30 dias de “Vale Tudo”, de Manuela Dias, serão vistos com atenção. Julgamentos, críticas, comparações… é a forma que o brasileiro sabe gostar e se envolver com algo. Mas esse pode ser o teste de fogo da teledramaturgia na TV Brasileira. Será que todos vão assistir às 21h, de frente para a TV? Ou vão estar saindo do trabalho, saindo do crossfit, do teatro, fechando a loja, ou dentro do quarto assistindo uma série no notebook? A Sociedade está bem diferente quase 40 anos depois. Mas muitos, continuam gostando das mesmas coisas… É de pai pra filho, sabe? Muitas possibilidades que não dependem mais de um aparelho de tubo ou fixado na parede que exibe imagens em 4K, depende do interesse, da tradição de se ver uma boa novela, e da TV Globo entender que mexer demais em “Vale Tudo” pode estragar tudo.
Por que história? Ah, história ela tem. Uma boa trama e uma leva de fãs. “Vale Tudo” nasce em 2025, com o mesmo compromisso de 1988, ou melhor, com legado. “Confia em mim!” A Novela será estrelada por Taís Araújo como Raquel, Bella Campos como a audaciosa Maria de Fátima, e Débora Bloch é a emblemática Odete Roitman. A TV Globo liberou a abertura da nova “Vale Tudo”, e uma homenagem importante à imortal Gal Costa. Confira:

“BRASIL!”