Para contarmos a história da origem do horror no cinema, precisamos passar pela França antes de chegarmos no Expressionismo Alemão. Mas não se preocupe! O Kolmeia vai te guiar nessa jornada!
Texto escrito por Well Belarmino (@wellington_belarmino)
Vamos começar esta viagem indo ao passado para contar um pouco da história de Georges Méliès, cineasta, ilusionista e inventor francês, considerado um dos pioneiros do cinema. Ele foi um dos primeiros cineastas a utilizar técnicas de edição e truques de câmera, como a sobreposição de imagens, para criar ilusões no cinema. Vocês devem conhecê-lo pelo filme “Viagem à Lua”, que mostra uma expedição à Lua em um foguete disparado a partir de uma grande arma. Mas você deve estar se perguntando: por que estou falando de Méliès aqui?

É que, com toda essa inventividade e capacidade de criação para o lúdico, ele criou o primeiro curta de horror que se tem registro. É importante pontuar que muito material se perdeu ao longo do tempo ou, até mesmo, pode não ter sido descoberto ainda. O curta em questão é “A Mansão do Diabo”, de 1896, que mostra Méliès como Mefistófeles (personagem da Idade Média conhecida como uma das encarnações do mal) chegando transformado em um morcego e depois tomando forma humana, assombrando dois cavaleiros, fazendo aparecer fantasmas e caveiras.
Calegari, pioneiro e inspirador
O primeiro longa de horror pode ter sido “O Gabinete do Doutor Caligari”, lançado em 1920. O enredo gira em torno de um hipnotizador chamado Dr. Caligari, que usa o sonâmbulo Cesare para cometer assassinatos em uma cidadezinha alemã. O filme é um marco do expressionismo alemão, movimento que está inserido em outras áreas além do cinema, como a pintura, escultura e também na literatura. O movimento questiona padrões de beleza vigentes fazendo uso de formas abstratas.

As principais características são: retratação de sentimentos como angústia, medo e solidão; valorização da subjetividade (voltada para o interior e o isolamento do indivíduo); e deformação da natureza e dos objetos para expressar sentimentos. O longa traz todos esses elementos para a tela com primor e possui momentos que são épicos até hoje para a história do cinema, como o sonâmbulo Cesare carregando sua vítima pela montanha torta da cidade.
Arte e história
É importante fazer um panorama histórico no qual esse movimento está inserido. Afinal, estamos falando de uma Alemanha derrotada pós Primeira Guerra. O pessimismo estava fortemente presente no país. Lembrando que a Alemanha, após a Primeira Guerra, assina o Tratado de Versalhes assumindo toda a responsabilidade pela guerra, o que causa impacto financeiro e político para o país. Então, dá para ter uma ideia do sentimento do país naquela época, e o expressionismo alemão dava luz, sombras, cenários distorcidos, maquiagens pesadas e atuações exageradas, tudo isso para trazer esses sentimentos para a tela.
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Outros clássicos do Expressionismo Alemão:
“O Golem”, de 1920, conta a história de um rabino que dá vida a uma estátua de barro para proteger a cidade, mas ela fica fora de controle. É interessante que já nessa história nos são mostradas camadas da criatura e como influências externas acabam levando-a a fazer o mal. Esse tipo de narrativa foi muito explorado em filmes de monstros futuros, como o clássico “Frankenstein”.

“Nosferatu” de 1922 é uma releitura não autorizada de Drácula. Vale ressaltar esse ponto por conta das mudanças significativas na história e alterações de nomes de personagens. É o primeiro e, até hoje, figura nas listas de melhores filmes de vampiro já feitos, por conta dos excelentes elementos de horror.

“Fausto” de 1926 é o drama horror do homem que faz um pacto com Mefistófeles para curar sua cidade e conseguir juventude em troca de sua alma. A atmosfera de horror nesse filme é fantástica.

Por último, “O Homem que ri” de 1928 é a trágica história do homem que, por conta de um crime de seu pai, tem seu rosto desfigurado e é condenado a ter um sorriso eterno em sua face. Uma curiosidade desse filme é que ele serviu de inspiração para o palhaço do crime, Coringa do Batman.

Sombras e distorções ganhando o mundo
Vários diretores do expressionismo alemão emigraram para os Estados Unidos após o surgimento do nazismo na Alemanha. Entre eles estava Fritz Lang, diretor de “Metropolis” (1927) e “M – O Vampiro de Dusseldorf” (1931), e F.W. Murnau, diretor de “Nosferatu” (1922), entre outros. Eles levaram na bagagem experiência e conhecimento do estilo que foi fortemente difundido na indústria americana.
Luz, sombras, maquiagens, sentimentos de angústia, medo e solidão… Realmente dá para dizer que o Expressionismo Alemão influenciou muitas das produções futuras de horror.
Lembrando que o Kolmeia também tem um vídeo incrível sobre a temática lá no canal! Aproveite para ficar de olho na nossa série “Noite de Terror”