O cinema de gênero no Brasil, embora vivo, ainda pouco trafega para o mainstream. Eu sei que existe uma lógica de consumo construída há muito tempo. Ainda assim, minha frustração permanece, porque filmes como Cinco Tipos de Medo precisam ser vistos por mais pessoas.

O longa apresenta um recorte da vida de cinco personagens que atravessam seus piores momentos. Bruno Bini constrói um roteiro com diferentes camadas, casado com uma montagem ágil que, em vários momentos, me fez prender a respiração diante do que eu estava presenciando.
Murilo (João Vitor Silva) se apaixona por Marlene (Bella Campos), enfermeira que cuidou dele enquanto ele esteve internado, infectado por COVID.
No entanto, Marlene vivia um relacionamento com o líder criminoso Sapinho (Xamã). Tudo muda quando a vida desses três personagens cruza com as jornadas de uma policial enlutada e de um advogado misterioso.
A partir desse ponto, o que mais me chamou atenção em Cinco Tipos de Medo foi a forma como Bruno Bini estrutura sua narrativa de suspense.

Existe aqui um verdadeiro quebra-cabeça narrativo, no qual diferentes histórias vão se conectando aos poucos. Quando esse tipo de proposta é bem executado, o impacto emocional da obra cresce. E, felizmente, aqui funciona.
Funciona porque há um cuidado evidente em dar peso dramático a cada personagem. Dessa forma, nenhum arco engole o outro, e todos encontram espaço para se desenvolver dentro da trama.
Regionalidade que chama a atenção
Além disso, a ambientação em Cuiabá, no Mato Grosso, não serve apenas como pano de fundo. Pelo contrário, ela é uma parte viva da narrativa. Eu senti que o filme carrega uma identidade muito própria, quase íntima.
É como se estivéssemos acompanhando histórias que realmente aconteceram ali, naquele contexto específico. Isso faz diferença. Em um cenário em que grande parte do audiovisual brasileiro ainda se concentra no eixo Rio-São Paulo, ver um suspense que respira outros ares é, no mínimo, revigorante.
E aí entra um ponto que, para mim, é um dos grandes acertos do filme: o elenco. Bella Campos entrega uma Marlene carregada de nuances, equilibrando fragilidade e força em uma personagem que poderia facilmente cair em estereótipos.
Já Xamã, em sua estreia no cinema, surpreende. Seu Sapinho não é apenas um antagonista caricato. Na verdade, ele surge como produto de um ambiente hostil, alguém moldado por circunstâncias que o empurraram para aquele lugar.
Isso, evidentemente, não justifica suas ações. No entanto, adiciona uma camada de complexidade que enriquece a experiência e fortalece o suspense dramático da trama.
Contexto pandêmico
Outro ponto que me pegou foi a maneira como o roteiro aborda temas sociais sem soar panfletário. A pandemia de COVID-19, por exemplo, não está ali apenas como elemento contextual. Ela impacta diretamente a vida dos personagens, servindo de gatilho para relações, perdas e decisões.
Além disso, questões como segurança pública, desigualdade e dependência química aparecem de forma orgânica. Em vez de interromper a narrativa, esses temas funcionam como uma extensão natural da vida na periferia retratada.
Narrativamente, o filme também acerta ao dividir sua história em blocos que facilitam a compreensão desse emaranhado de acontecimentos. Com isso, o espectador consegue acompanhar melhor o desenho das conexões entre os personagens.
Filme que fica com a gente mesmo quando termina
Ao mesmo tempo, existe um ritmo que alterna momentos de respiro com sequências de tensão crescente. Esse equilíbrio me manteve completamente envolvido e reforçou a força do suspense ao longo da projeção.
Em alguns trechos, confesso, precisei de um esforço maior para conectar os pontos. Ainda assim, a recompensa vem (e vem forte). No terceiro ato, quando tudo começa a se encaixar de forma quase cirúrgica, eu já estava completamente entregue às reviravoltas e ao desfecho daqueles personagens.
No fim das contas, Cinco Tipos de Medo é aquele tipo de filme que reforça algo em que eu sempre bato na tecla: o cinema brasileiro é potente, diverso e cheio de histórias que merecem ser vistas.
O que falta, muitas vezes, é espaço. Falta distribuição. Falta, sobretudo, um olhar mais atento do público para além do óbvio. Entretanto, quando um suspense como esse aparece, ele escancara o quanto estamos perdendo ao ignorar essas narrativas.
Eu saí da experiência com a sensação de ter assistido a algo genuíno. E talvez seja justamente isso que mais tenha me marcado: Cinco Tipos de Medo não quer apenas entreter.
Mais do que isso, ele quer provocar. E comigo, pelo menos, conseguiu.








