Não há como começar a crítica de Michael de outra forma a não ser por: “Era uma vez”. A história de um garoto com um dom especial que, nos anos 60, percorria os EUA em shows com seus quatro irmãos, agenciados pelo próprio pai.
Porém, ao ser privado de uma infância normal, Michael transformou o mundo da música em sua eterna “Terra do Nunca”. Ali, seus desejos viravam recordes, enquanto, no mundo real, ele enfrentava preconceitos e controvérsias.
O elenco: Entre vilões e fadas-madrinhas
O longa carrega uma narrativa que facilmente passaria por um conto de fadas sombrio. De um lado, temos Colman Domingo interpretando Joseph “Joe” Jackson. Domingo é, talvez, o único ator com permissão para se soltar totalmente. Ele entrega uma vilania feroz e cativante no papel do patriarca e algoz dos filhos.
Do outro lado, temos Nia Long como Katherine Jackson. Embora a construção da personagem seja rasa, ela funciona como uma espécie de “fada-madrinha”, servindo como o único suporte emocional constante do protagonista.
A semelhança assustadora de Jaafar Jackson
Destaque também para as figuras de apoio, como o guarda-costas Bill Bray (KeiLyn Durrel Jones), essencial na vida pessoal e profissional do cantor. E, claro, as estrelas que dão vida ao mito: Juliano Valdi brilha como o Michael de 10 anos no ato de abertura, mas o show é de Jaafar Jackson.
Aos 29 anos, o sobrinho de Michael entrega uma performance que chega a assustar. Não é apenas a aparência; o tom de voz, os trejeitos e a forma de se mover são tão precisos que, por vezes, temos a sensação de ver a própria lenda em cena.
Som impecável vs. Edição apressada
Se tem algo que justifica o ingresso, é a experiência sonora. O design de som é primoroso, transportando o espectador para dentro do estúdio durante a criação de álbuns icônicos como Off the Wall e Thriller, além de recriar a energia vibrante dos videoclipes e turnês.
No entanto, o filme sofre com o ritmo, especialmente no primeiro ato. A fase do Jackson 5 passa voando, com uma pressa excessiva que prejudica o entendimento da base emocional do artista. É compreensível a dificuldade de adaptar quatro décadas em um longa, mas foram justamente os traumas da infância que ditaram o caminho que a estrela seguiu.
Veredito: Um carro esportivo em baixa velocidade
Adaptar a vida complexa de Michael Jackson em duas horas é uma missão quase impossível. Os fãs certamente sairão satisfeitos pelos números musicais e pela semelhança física impressionante de Jaafar.
Contudo, como cinema, o filme deixa a sensação de “quero mais”. Diante de tanto material rico, o roteiro parece seguro demais. No fim das contas, Michael é como ter as chaves de um carro superesportivo nas mãos, mas ser obrigado a dirigi-lo em uma rua com baixo limite de velocidade. É bom, mas poderia ter ido muito mais longe. Basta saber como a continuação seguirá a mesma fórmula ou evoluirá.









